O Primeiro Assassino
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1

*Os relâmpagos iluminam a noite de Fardon. Do topo da torre do Santuário de Hurst, um homem coberto por um manto cinza e capuz está parado encostado em uma das gárgulas frias e inertes, como a escuridão. O homem se levanta e equilibra-se no fino parapeito que não foi feito para se andar sobre. Ele parece fitar o infinito abaixo, ponderando sobre questões que só ele entenderia.*
Meu nome é Laenor Fartengh. Não há muito além disso, entretanto. Minha família está morta. Minha infância foi como a de qualquer criança comum. Mas nada disso importa agora, tudo o que eu tinha se perdeu na tragédia dos meus trinta e dois anos de existência. Meu nome nada significa para mim, nem para ninguém para ser exato. Eu não tenho amigos, não tenho lar e não tenho um lugar para ficar em uma noite chuvosa.
Eu olho para o abismo lá embaixo, que sobre os olhos de um homem comum pareceria uma imensidão vertical sem fim. Ele tentaria se agarrar na reentrância mais próxima dessa parede de arenito. *Ele acaricia a parede como se fosse uma velha amiga*. Mas eu não sou um homem comum. Para mim, esse abismo parece mais uma passagem para uma vida fora desse inferno. Nada aqui é o que parece. Ninguém é confiável, ninguém lhe estenderá a mão quando você tropeçar, essa suposta generosidade não é nada mais do que pura hipocrisia.
Minha vida se reduz a nada.
Não, não é para tanto, ainda tenho uma adaga e essa roupa maltrapilha. *Um sorriso de ironia surge no rosto antes inexpressivo de Laenor, mas logo a expressão se esvai novamente*. Ande logo, Laenor, faça sua escolha.
*Depois de vários minutos fitando o chão a uma centena de metros a baixo, o homem parece não ter tomado sua decisão*
Não. Por quê? Não sei. Apenas não.
*E Laenor sai do que seria sua forca, descendo rapidamente as paredes lisas do templo da justiça, mas esta para ele não significava nada mais do que uma bela palavra*
*As ruas estavam vazias enquanto o ser encapuzado andava sem rumo por uma cidade que não era dele. Ele parava em cada esquina e beco, examinava seus caminhos possíveis, como se cada um o levaria para um destino diferente*
A noite agoniza. Como eu agonizo. Será que a noite é minha amiga? Não seja tolo, Laenor, você nunca teve, não tem e nunca terá amigos. A chuva parou? Eu não tinha percebido…
*O homem chega, então, na rua da estalagem mais luxuosa da Capital do Reino Branco, a Flor de Ouro. Lá parecia ser o único lugar vivo dentre todos os outros. Uma luz travessa na escuridão reinante. Mas nem sempre a luz representa o bem. Não existia nada de bom que poderia acontecer durante a madrugada em uma taverna, mesmo que essa fosse a mais rica da cidade*
Uma falsa luz? Sim, com certeza. Falsa como todas as outras coisas nessa maldita cidade. Olhe aqueles dois saindo… Um nobre que estava bem vestido quando entrou na taverna. Agora, estava mais parecendo com um bêbado que achou roupas finas em um beco. E é para lá que eles vão. O que eu estou fazendo? Por que não consigo controlar meus pés? Por que a adaga, antes escondida na parte de trás do meu cinto, está agora trocando calor com meu antebraço? Engraçado, essa troca de calor me é prazerosa, como se isso fosse algo que me lembra de bons tempos.
*Mas o que o homem não percebera conscientemente é que o nobre bêbado estava tentando abusar da mulher que ele arrastara da taverna, provavelmente uma atendente jovem e com irmãos e pais idosos para sustentar. Mas ela não vendera seu corpo, sua moral não a permitia. Mas parece que aquele homem fora de si não entendeu isso. A passos largos e rápidos, Laenor seguiu os falsos amantes até um beco escuro. Naquele momento, a escuridão parecia ter desaparecido e o homem encapuzado podia ver distintamente o homem tentando abusar da mulher indefesa. Depois tudo pareceu apagar na mente do homem sem nada a perder*
Esse cheiro…é muito bom. A textura de veludo deste líquido que escorre por minhas mãos parece vinho de uma ótima safra, mesmo que eu nunca tenha provado de um destes. A voz fraca que ecoa pelo beco é desconhecida. “Obrigada”? Pelo que? O que eu fiz?
Pelos deuses! Eu matei esse homem que jaz inerte perante mim. Estranho… Não me sinto culpado. É irônico até, tudo o que minha família tentaram me ensinar… Tudo o contrário do que aconteceu agora. E eu me sinto tão bem! Como se eu livrasse o mundo de um rato doente. Será para isso que eu existo? Matar? Apenas isso?
*E todo o sentimento de completeza sumiu novamente do coração do homem solitário ensangüentado em um beco na madrugada*
Essa noite nunca chegará ao fim? Não sei por que ainda vago por essas ruas vazias em busca de algo que nem eu mesmo sei o que é. O que é aquilo na ruela? Um cachorro? Não pode ser, não daquele tamanho, não com aqueles olhos. Devo ver o que é? Laenor, Laenor, o episódio anterior não foi o suficiente para você por uma noite? Não sei responder.
*Foi então que um grito agudo soou da ruela. Sem pensar duas vezes, ou mesmo controlar seus movimentos, Laenor adentrou a ruela e viu o cachorro demoníaco rosnando e latindo com seus grunhidos bizarros para uma criança encolhida sob um monte de lixo. Ela não conseguia se mexer e o grito anterior parecia ter sido seu último. O homem sacou rapidamente sua adaga, ainda coberta de sangue coagulado de horas atrás e saltou sobre o cão assassino. O cão parecia ter percebido a presença do humano e pulou sobrenaturalmente para o lado, logo antes de se lançar contra o braço direito de seu agressor em uma mordida feroz. Laenor não pôde se esquivar, apenas sentiu a dor lancinante de sua própria carne sendo dilacerada. Não agüentando a dor e o peso do cão que o puxava para o chão duro, o humano caiu. Mas a luta ainda não estava acabada. Quanto mais o cão mordia, menos o homem sentia. E maior era sua força, aumentada pela adrenalina da situação. Finalmente, ele conseguiu chutar o monstro e se desvencilhar de sua mordida fatal. Com a mão esquerda, o homem conseguiu pegar sua adaga que caíra momentos antes. O cão monstro já estava em disparada em direção ao pescoço de Laenor. Mas, desta vez, ele conseguiu se esquivar dos dentes vorazes. O homem, então se levantou, desviando-se novamente de uma mordida que visava suas pernas. O Sangue que vazava do braço dilacerado começava a tirar a concentração e a força do humano. Era uma situação desesperada. Sem muito pensar, ele deu um salto para frente e virou-se para encarar seu inimigo novamente. O cão já investia contra ele, impiedosamente. Foi então que Laenor lançou sua adaga em um golpe de tudo ou nada. Mas não foi seu melhor arremesso, mas serviu para salvar sua vida. A adaga acertou o lado externo da pata direita do animal, quando este tentou se desviar para seu lado esquerdo. Laenor caiu perante o cansaço e o cão uivou de uma dor semelhante a do humano. Então o monstro se declarou vencido e saiu, meio correndo meio mancando, pela extremidade oposta da ruela. Exausto e com um ferimento aberto e já infeccionando, Laenor caiu inconsciente em um sono mortal*
Não sinto dor. Meu corpo está leve, parece que estou voando. Essa sensação é maravilhosa. Se esta é a morte, me arrependo de não ter me arremessado em seus braços antes. Não posso ver nada, mas tenho certeza que meus olhos estão abertos.
*E então, Laenor começou a se lembrar de tudo o que tinha ocorrido naquela noite fora do comum: o assassinato, o cão demoníaco, a criança chorando… E foi pensando nesta que o humano voltou a si. Ele estava no mesmo beco. A criança estava sobre ele agarrada ao trapos, agora ensangüentados, de sua roupa*
Mais um “obrigado”?…Não, ele está em choque. Sim, parece um garoto. Minha adaga? Onde está minha adaga?…Grande Laenor! Você não se cansa de perder tudo, não é? Minha vida é uma tragédia.
Cale-se, assassino! *uma voz parecia ecoar na mente de Laenor e ela continuou* Recomponha-se! Eu não te trouxe de volta para você continuar se lamentando. Eu preciso de seus serviços e garanto que você vai achar a minha recompensa mais do que suficiente. Afinal, você não tem mais o que perder, não é?
Agora minha consciência é irônica…
*Tomado por uma força quase sobrenatural, principalmente considerando que ele estava morto instantes atrás, Laenor levantou-se do chão, levando o menino junto ao seu peito, deixando-o pendurado. Este parecia não querer soltar, como se visse no adulto a única imagem parental que ele teria na vida. Mas não era de se admirar, afinal ele fora salvo por aquele estranho homem. Então, Laenor andou, andou deixando que suas pernas o guiassem. E elas o guiaram para fora de Fardon, para além do Grande Rio, para uma grande torre cercada de um jardim com cheiro de jasmim*

2

*O assassino seguiu seu caminho pelo caminho pedregoso entre o jardim. O aroma era incrível. O garoto que estava caminhando ao seu lado parou para examinar uma flor que lhe parecia um tesouro.*
-Qual é o seu nome? – perguntou Laenor, na primeira vez que se dirigiu ao garoto.
Sem resposta. Garoto mal edu…
-Seja bem vindo à Torre de Ermaras, senhor Fartengh – Mais adiante no caminho, sob o umbral da grande porta de madeira negra, estava um homem velho com um rosto estranhamente familiar e uma cicatriz característica sobre seu olho esquerdo. Ele vestia um robe de seda branca amarrado na cintura por uma corda tingida de azul. Suas mãos, livres do tecido macio não apresentavam qualquer sinal de trabalho pesado e suas barbas brancas longas até o peito combinavam com o corte de cabelo de mesma cor. Seu rosto era inexpressivo - Sou Alari Volheim.
-Como você sabe meu nome, velho? E quem diabos é você pra me fazer caminhar mais de 300 quilômetros? – perguntou indignado o assassino.
- Preferia ter ficado lá estendido?
Difícil de responder velho.
- E velha é sua querida avó. Meu cabelo está ficando grisalho apenas por uma experiência arcano-alquímica que deu um pouco bem demais. Mas seria demais pedir pra um tolo como você entender dessas coisas.
*O assassino riu*
Pelo menos o velho tem um pouco de senso de humor.
-Certo… Vamos aos negócios, então?
-Sim – disse o mago recompondo-se – Temos muito que conversar.

3

Esse mundo está morrendo. Não. Esse mundo está sendo assassinado. As leis não estão sendo cumpridas, ou pior, estão sendo cumpridas para aqueles que menos merecem punição. Os altos escalões estão livres da verdadeira justiça. Nós, habitantes de Faralchar, precisamos salvar as pessoas inocentes das garras daqueles sem escrúpulos. É nessa parte que você entra, assassino. Você foi atormentado a vida toda por decisões de pessoas que nem lhe conheciam e eles o destruíram. Você, claro, não é a primeira pessoa que irá se revoltar contra o sistema. Na verdade, nem será a única. Eu quero que você trabalhe para mim, mate que eu ordene que mate e com o tempo, quero que mate aqueles que você julgar injustos. Mas eu não estou dando poder de carrasco para um homem qualquer, você não é um homem qualquer. Eu vejo isso no fundo de sua alma. Acredite ou não, no fundo do seu âmago existe uma boa pessoa. Uma boa pessoa maltratada por pessoas más. Minha escolha foi simples assim. Trouxe você de volta do outro mundo para que pudesse fazer o que você está destinado a fazer. Matar. Eu estarei sempre lhe auxiliando como seu consiglieri e farei de tudo para que você aprenda as maneiras de não ser pego e não ser visto. Você será a mão invisível da justiça, mais especificamente a lâmina. A lâmina de redenção dos oprimidos, a lâmina da morte para os injustos. Mas você não perderá seu tempo caçando ladrões de segunda categoria, mas sim atacará as verdadeiras mentes por trás disso tudo, direta e indiretamente falando. Você os matará deixando apenas sua marca para trás. E eles o temerão, pois terá o poder de exterminá-los não importa como e vários ao mesmo tempo. Porque você será apenas o primeiro de um grupo de guerreiros de primeira linha cuja missão é livrar esse mundo da injustiça que é regada a dinheiro, poder e fama. Você será o primeiro integrante da Ordem da Pena Dourada, uma irmandade que criaremos escolhendo os mais justos e capazes guerreiros escolhidos desde jovens para seguir pelo nosso caminho. O que você me diz assassino?

4

-Então você quer sair por aí matando pessoas como um fora da lei e ainda me arrastar junto? – perguntou indignado o assassino.
- Não, eu não quero sair por aí matando pessoas – retrucou Volheim – Eu quero que você saia por aí matando pessoas.
*Laenor riu, incrédulo.*
-Além do que – disse – Eu não sou o homem certo do qual falou.
-O garoto está aqui provando o contrário – Volheim olhou para o garoto por cima dos ombros de Laenor – Ou você o trouxe até aqui para treinar seus músculos?
*O assassino não tinha resposta para isso. Contentou-se apenas em virar-se e olhar para o garoto logo ali examinando cuidadosamente as flores. Ele nunca havia perguntado a si mesmo por que trouxera o estorvo*
-Você tem um ponto, mas isso não quer dizer que eu…
-Não minta para si mesmo, senhor Fartengh. Você quer vingança.
-Querer não é poder. Eu nunca mataria…
-Alguém sem ser para defender a si mesmo? Alguém que não possa se defender? É isso? – Alari levantou a voz – E por quanto tempo mais você vai permitir que outras pessoas sofram do mesmo destino seu?
-Não é da minha conta – respondeu o assassino quase como um sussurro.
-Claro que é – continuou o mago – assim como é da minha e daquele garoto e de todos os cidadãos de bem. Não podemos escolher os nobres, nem o Rei. Mas sofremos nas mãos deles. Mas tem algo que podemos fazer e é isso que eu lhe estou auxiliando a se dar conta. Se você não quer fazer isso pelo seu próprio futuro, faça pelo futuro daquela criança – Volheim apontou para o garoto logo ali ainda indiferente para a discussão acalorada.
*A primeira missão do assassino foi uma semana depois. Um nobre de Ólien no Reino de Wondrom costumava abusar de suas criadas. Alari enviou Laenor para a cidade vítima com as ordens: examinar o caso, descobrir se Oren Kijar era realmente um estuprador; se fosse, eliminá-lo e deixar para trás o que seria sua marca registrada, uma pena dourada. Não foi difícil encontrar a casa de Kijar, uma mansão na parte alta da cidade, a dez quarteirões de uma torre de magos. Por dois dias, o assassino observou o movimento na casa e as pessoas que entravam e saiam dela, inclusive seu dono. Na manhã, duas empregadas saiam para fazer compras enquanto um homem gordo e vestido em pijamas de ceda, Oren, fazia sua caminhada matinal em seu jardim de rosas brancas. A caminhada era fiscalizada por dois dos dez seguranças que cuidavam da casa. Toda tarde, Oren saía para fazer negócios no mercado da cidade, acompanhado de cinco seguranças, o que se seguia até o sol se pôr. Durante a noite, pelo que Laenor conseguiu espiar de uma das grandes janelas de vidro que dava para a sala de jantar, Oren passava a maior parte do tempo comendo e logo depois se retirava, provavelmente para o seu quarto, onde aconteciam os “ocorridos”. Mas foi no final da segunda noite de vigília que o assassino viu uma das empregadas fugindo da mansão. Ele correu para interceptá-la. Era uma moça jovem, com as roupas e cabelos desgrenhados, incomuns de uma empregada de rico*
-Senhorita – chamou o assassino – posso ter uma conversa com você?
-…- Ela virou-se para Laenor, seu rosto coberto em pranto – Que, quem é o senhor?
-Alguém que sabe o que aquele monstro lhe fez.
*Ela, aparentemente por impulso, jogou-se nos braços de Laenor que quase a empurrou de volta surpreso. Ela olhou para ele, ainda chorando. Era uma prova mais do que suficiente*
-Por favor, não conte nada – disse ela – Se alguém descobrir eu não sei o que ele faria comigo. Por favor, moço.
- Ninguém saberá moça, se não contar – Disse Laenor – Mas agora me diga, onde é sua casa? Te acompanharei até lá.
*O caminho foi duro para Laenor. Aquilo parecia a calmaria antes da tempestade*

5

A casa dela era longe demais, se eu soubesse disso não a teria acompanhado. Não minta para si mesmo *a voz de Alari Volheim ecoou na mente do assassino*. É claro que eu teria. Maldito Velho.
*O sol ainda não tinha raiado quando Laenor estava de volta a frente da mansão Kijar. Apenas algumas janelas estavam abertas, aquelas que davam para a cozinha e alguns corredores usados quase sempre por empregados do gordo rico. O assassino pulou as grades baixas que cercavam a grande casa. Os soldados ainda cuidavam só das portas principais da casa, e somente iriam para o jardim quando o monstro em forma roliça estivesse com eles. Laenor escalou rápida e facilmente uma árvore cheia de folhas e flores provenientes da primavera*
Uma bênção de Arkfalas para mim. Acho que é uma da primeira vez que eu penso que um deus está do meu lado.
*Ele esperou trinta minutos. O sol raiou inundando o jardim com sua cor amarela fraca oriunda de uma manhã que promete beleza. E beleza maior seria se a estrela brilhante iluminasse um corpanzil imenso tombado num jardim de árvores frutíferas. Pelo menos para o assassino esse era um detalhe que seria memorável. Laenor preparou seus virotes especialmente preparados com uma fragrância mortal, como Volheim o havia instruído. Aquilo era para os guardas. Para Oren Kijar, a faca já lascada pelo tempo que o mago recuperara dias antes para o assassino*
Onde está você, senhor Oren? Por favor, não decida que seu excesso de peso o impeça de sair nessa linda manhã. Afinal, eu tenho uma surpresa muito agradável para o senhor. Bom, talvez não para o senhor…
*O barril coberto de seda que era Oren saiu finalmente de sua casa e avançou para seu caminho usual. Laenor gelou e ficou imobilizado quando o nobre olhou para cima, em sua direção, e aspirou profundamente o ar da manhã. E relaxou quando o monstro expirou e continuou seu caminho. A corda da besta estava esticada e umedecida com um óleo especial que a tornava mais silenciosa. O assassino esticou o braço que tinha um dos dedos no gatilho da arma. Seria difícil mirar com apenas uma mão, mas o barulho de uma seta atravessando as folhas era muito ameaçador para o plano. Na mão livre, outra das setas preparadas*
-Ei você! – disse Oren virando-se para um dos soldados distraídos a suas costas.
-Sim, senhor? – endireitou-se rapidamente o guarda.
-Suba naquela árvore e pegue uma maçã para mim.
-Em qual árvore senhor?
*Era a árvore ao lado da de Laenor. O assassino agradeceu sua boa sorte. Mas para que o soldado incompetente não tivesse dúvida de qual árvore teria de escalar, Oren teve de ficar ao lado dela, ao alcance do pulo mortal do assassino. O soldado foi até a árvore designada e começou a escalar desajeitadamente. O guarda restante ficou parado a cinco metros do nobre. Quando o guarda coletor alcançou a copa da macieira, a besta disparou. Antes do guarda no chão cair no chão, outra seta já estava sendo disparada contra a árvore das maçãs. E logo depois o guarda coletor começava a cair diretamente para o chão duro, com uma maçã em mãos*
-Mas que…
*Antes que o monstro de Kijar pudesse clarear a imagem do ataque em sua mente suja, Laenor pulou da árvore. Faca em mão. Não por muito tempo, porque logo ela estaria fincada na garganta do nobre corrupto. E Laenor sobre ele. O gigante tentava falar algo, provavelmente um “por quê?”, mas apenas tossidos roucos saiam de suas cordas vocais danificadas pelo punhal velho*
-Você deveria ter mantido sua ferramenta dentro de suas calças largas, Oren Kijar – disse friamente o assassino – que os Deuses não tenham piedade de sua alma.
*Agora o que um dia fora Oren Kijar era apenas um detalhe em uma paisagem de uma bela manhã de sol. O assassino, primeiro membro agora oficialmente da Ordem da Pena Dourada, estava sobre o corpo inerte. Ele pega a única jóia pendurada sobre o pescoço grosso, uma corrente com um símbolo de honra feitos ambos de ouro puro. Não era muito, mas já serviria para o plano de Laenor. Em troca, deixou uma pena tingida de dourado e do sangue do monstro morto. Horas depois ele estava novamente na casa da moça violentada naquela madrugada*
Agora você não precisa mais se preocupar, moça. Ele nunca mais vai tocar em um fio sequer de seu cabelo. Espero que tenha uma boa vida daqui em diante.
*O assassino bateu na porta de madeira. A jovem mulher abriu a porta, mas não havia ninguém lá. Ao lado do umbral, uma bolsa de couro pesada que tilintou quando levantada. Ela nunca mais sofreu qualquer abuso na vida e os nobres de Ólien nunca mais dormiram tranquilamente enquanto viveram*

6

*Na semana seguinte, mais um monstros pereceu nas mãos de Laenor Fartengh e na semana seguinte e na depois desta. Cinco meses depois, o assassino já tinha mais de cinqüenta mortes em sua trilha. Todas elas limpas, deixando para trás somente a pena dourada manchada do sangue das vítimas. Quando não estava em campo, Volheim lhe ensinava sobre filosofia, estratégia, um pouco de magia (para que ele estivesse preparado para quando enfrentasse um mágico) e alguns aspectos sobre o que chamava de verdadeira justiça, algo muito semelhante ao que os servos de Hurst aprendem, mas geralmente não podem empregar. Certo dia Laenor estava treinando defronte a Torre de Ermaras e o garoto, que nunca antes falara, veio até ele. Seus jovens olhos pareciam vidrados a cada movimento da lâmina do assassino, que antes prometera a si mesmo achar um lugar para ele por achar que aquela não era uma situação adequada para um menino*
-…Senhor Fartengh – sussurrou o garoto
*Laenor gelou ao ouvir a voz doce e parou seus golpes nos bonecos de madeira que o circundavam*
-Então quer dizer que você fala? - perguntou o homem - diga então.
-É que eu… – falou o garoto e se calou.
-Agora vai ficar mudo novamente? Fale logo.
-Quando eu vou poder treinar com o senhor?
-Como é? – assustou-se Laenor – Isso não é para crianças. Você sabe o que eu faço?
-Claro que eu sei! – gritou o garoto, arrependendo-se claramente do tom de voz logo após – Desculpe…
-E ainda assim quer treinar comigo? – disse o adulto ignorando o que outros considerariam um insulto.
-Sim e… – parou por um segundo como se procurasse as palavras certas – E é por isso que eu quero treinar com o senhor, quero fazer o mesmo que o senhor faz.
*Laenor riu da inocência do garoto*
-Tudo bem então, mas existem algumas condições. Você não viajará comigo, fará tudo que eu disser sem questionar e vai, pelo amor dos deuses, parar de me chamar de senhor. Isso me faz sentir velho.
*O garoto pulou de alegria com a resposta do seu novo mestre*
-E tem mais uma coisa – continuou o assassino – Não treinarei alguém cujo nome nem conheço.
*O garoto parou, sério. Sua expressão de seriedade era engraçada para Laenor, como seria para qualquer um que assistisse a cena*
-É Holt, senh… – o assassino açoitou-o com os olhos – digo, é Holt!

7

*Passaram-se mais alguns meses e a fama da Ordem da Pena Dourada crescia. Paralelo a isso, o treinamento de Holt progredia muito rápido. O garoto já sabia como andar sem ser notado, atirar com arco e besta e lutar com espadas muito melhor que Laenor esperava. O garoto adotou para si o sobrenome de seu mestre, proclamando-se Holt Fartengh. O assassino não se incomodou e até considerou um elogio. Certo dia, Volheim trouxe uma missão que deveria ser realizada em Fardon, a Capital do Reino Branco, cidade natal de Laenor e a duas semanas de viajem da Torre de Ermaras, onde eles habitavam*
-Quando você vai partir? – questionou Holt enquanto treinavam.
-Depois de amanhã – respondeu Laenor – por que a curiosidade?
-Será que eu não posso ir com você dessa vez? Eu prometo que só vou ficar olhando e não vou atrapalhar.
-Não. E não é a questão de atrapalhar, não quero que você siga esse caminho.
-Você não manda em mim. Eu posso…
-Ah é? – interrompeu Laenor – quer dizer que já aprendeu tudo que eu poderia te ensinar? Então podemos parar por aqui e você pode ir embora.
-Não – respondeu o garoto, assustado – Desculpe.
*O alvo era um aristocrata que se proclamava conde de Sin-Ol, o deserto no norte do reino. Ele era um homem cruel que punia seus empregados como se eles fossem escravos. Mais de uma vez ele foi acusado de homicídio de um dos empregados, mas as provas sempre sumiam e outras pessoas eram culpadas, pessoas que com certeza não cometeriam os crimes. E disso Laenor já sabia. Portanto, o tempo procurando encontrar provas contra o aristocrata de nome Adha Higajav era desnecessário. Na capital, ele estava hospedado na mais luxuosa estalagem, Dragão Dourado, e rodeado de seguranças. Até sua janela era guardada e um guarda adicional de sua confiança fazia turno noturno no quarto em quanto Adha dormia. Era a missão mais difícil de Laenor até então. O assassino teve que pedir ajuda para Alari Volheim através de um livro mágico que servia para trocar mensagens codificadas entre assassino e mago. Alari enviou para ele três frascos mágicos. Um deles seria necessário para prender os guardas da porta do quarto de Adha, o segundo era para que Laenor não sofresse os efeitos da primeira poção e o último era para que tudo isso ocorresse em silêncio. Mas o auxílio mágico seria a perdição de Laenor. Dois dias depois de chegar a Fardon e instalar-se na Dragão Dourado, finalmente Laenor pôs seu plano em ação. Ele saiu de seu quarto de madrugada. Usou os segundo e terceiro frascos como lhe fora dito e aproximou-se dos guardas da porta*
-Quem é você? O que quer aqui? – seus lábios diziam, mas não existia som algum.
*Laenor jogou o primeiro frasco em um dos guardas. Ele quebrou-se e liberou sobre praticamente todo o corredor uma teia gigantesca e pegajosa. Mas o assassino era imune ao seu grude. E os dois primeiros guardas pereceram pelas adagas que o assassino levava uma em cada mão. A porta estava aberta, para que os guardas de fora pudessem entrar caso fossem requisitados do lado de dentro. Mas, ao entrar, Laenor fora atacado violentamente pelo guarda. O assassino desviou-se por pouco da grande lâmina e fincou a sua própria no pescoço e na abertura direta da armadura do soldado, que caiu inerte. Mas lá estava Adha, brandindo uma cimitarra, uma lâmina fina e curva. Aparentemente, para o azar do assassino, Adha Higajav era treinado em esgrima. O nobre nunca precisara usar sua própria espada, até aquele momento*
-Você vai me pagar, assassino de araque? – as palavras simbólicas saiam dos lábios de Adha – Sabe quanto valiam aqueles soldados?
*Laenor não hesitou. Partiu rapidamente para cima do nobre armado e ainda de pijamas. Mesmo com uma espada, seria um alvo fácil, mas o pensamento otimista do assassino estava errado. Quando ele atacou com a adaga da mão direita, Adha rapidamente feriu o membro de Laenor com um corte rápido e preciso, desarmando-o. O mesmo ocorreu quando o assassino golpeou com a mão esquerda. Mas Adha não se contentou e golpeou mais duas vezes nas aberturas da armadura de couro de Laenor que começou a sangrar muito*
Droga. Droga. Droga. Agora só me resta tentar escapar pela janela. Minhas mãos estão incapacitadas de segurar qualquer arma que seja. Eram dois andares? Ou será que eram três? Não importa. Terei de arriscar. Mas ele já viu a minha face. Maldito seja! Maldito seja!
*Laenor jogou o corpo para a direita em direção a cama, tentando fintar seu oponente para passar por sua esquerda. Mas Adha era mais esperto que isso. Ele deixou o assassino passar e o atacou pelas costas, fincando a arma curva pouco acima do quadril. O golpe fez Laenor cair de joelhos para frente. O que era para ser seu alvo agora puxava seus cabelos firmemente com a mão esquerda. Assim ficou por alguns segundos. A espada fincada em suas costas torceu causando uma dor lancinante. E o puxão de cabelo seguinte fez com que Laenor enfrentasse a face de seu ex-alvo*
-Quem te mandou? – perguntaram os lábios de Adha, ainda sem som saindo deles.
-Vai se ferrar – respondeu pausadamente o assassino para ter certeza que o nobre o entendia.
-Quem está ferrado é você, assassino. Eu não vou te matar, não. Eu tenho algo muito melhor planejado para você. Primeiro, vou cortar suas mãos para que nunca mais segure uma bolsa de dinheiro. Depois seu pé direito fora, para que ande o resto da vida com muletas. E, por fim, cortarei sua língua para que ninguém…
*A boca de Adha parara de se mexer por um instante. Depois, o que saia dela era sangue. O puxão nos cabelos se foi, mas a cimitarra fincada ainda continuava no lugar, mas não torcia mais. Laenor tombou para o lado e tentou espiar o que matara seu alvo. Era Holt. O garoto estava espantado com o que acabara de fazer, como se não acreditasse. Laenor pensou que é o efeito da primeira morte. Mas logo ele recuperou um mínimo de consciência para dizer:*
-Você está bem? – mesmo sem som, o assassino lia as palavras tremendo nos lábios do aprendiz.
-Sim – disse o assassino, tirando a cimitarra de sua carne, não era verdade – O que você está fazendo aqui, garoto?
-Eu… – ele nada falou por uns instantes – Me desculpe.
- Desculpar? – Laenor imitou um riso, mas cuspiu sangue por isso – Eu agradeço. Eu agradeço por não cumprir minhas ordens, por mais estranho que isso soe.
*Apoiado em Holt, Laenor se levantou e ambos estavam saindo do quarto, quando Holt parou*
-Espere – disseram seus lábios e ele apontou para a pena dourada presa no cinto do assassino.
- Tome – entregou a pena para o discípulo – Você o matou. Complete o serviço.
*E como um diploma, Laenor passou a pena dourada para Holt Fartengh que a umedeceu no sangue de Adha Higajav e a pousou sobre seu cadáver*

8

-Por que você não me falou que ele era mestra na espada? – perguntou friamente Laenor a Alari, quando ele voltara para o lar.
-Você acha que eu sabia? – retrucou o mago, indignado – E por que você não investigou melhor seu alvo, como foi instruído? Não importa agora, mesmo se você estivesse morto, não importaria. O que importa é que o jovem Holt lhe salvou seu traseiro fedido.
-O moleque é um… – o assassino parou por um momento, controlando seus sentimentos – o garoto agiu bem.
-Sim, ele é um verdadeiro assassino – Alari riu de uma piada inexistente – Agora você viu com seus próprios olhos, ele deve ser o segundo membro.
-Ele não tem capacidade, pelo menos não ainda.
-Eu sei muito bem disso, Laenor, mas ele já é um membro. Já matou seu primeiro alvo. Já usou a Pena Dourada para limpar o sangue do morto e a abandonou como um sinal de aviso aos corruptos.
-Quero ver como ele se sairia se eu não tivesse matado os guardas e se o surpreendente senhor Higajav não estivesse tão ocupado me torturando e a sala não tivesse sob seu feitiço…
-Vocês falam como se eu nem estivesse aqui – disse Holt que estava lá o tempo inteiro.
-Não estou querendo que seus feitos sejam diminuídos – disse Laenor – tampouco estou sendo ingrato por ter salvado minha vida, mas você tem que entender que ainda não está preparado para isso. Isso sem contar que a idéia de você se tornar um assassino não me agrada nem um pouco. Você não prefere estudar magia com Alari ou começar a cuidar de uma pequena propriedade? Com o dinheiro que eu peguei daqueles nobres, podemos comprar…
-Não é isso que eu quero – interrompeu Holt – e você sabe, mesmo que seja bem no fundo de seu peito, você sabe disso.
- Enfim – disse Alari – eu acho que o garoto está pronto. E eu tenho uma idéia para provar isso para você, Laenor. Que tal você deixar o garoto cuidar do próximo alvo, enquanto você o observa de perto? Se ele se sair mal, você pode retribuir o favor salvando-lhe a vida. Se ele se sair bem, agente pode repetir esse processo até que você esteja convencido.
-Ótimo! – exclamou Holt, não podendo conter sua excitação.
-Nem que a vaca voe – Laenor fez o sorriso bobo no rosto do garoto sumir – Convenhamos, Alari, ele não tem nem dez anos. Deixe-o completar vinte, pelo menos e…
-Quinze – interrompeu Alari – Mas até lá ele vai lhe acompanhar nas missões ajudando em assuntos que não envolvam sangue.
-… – Laenor parecia muito descontente – Você é louco, mago?
-Alguns me chamam assim – respondeu Alari – eu já acho que eles não entendem minha superioridade de pensamento.
-Você não vai desistir até que o garoto venha comigo, não é?
-Olha! Você está conseguindo ler minhas decisões ou foi só um bom chute? De qualquer modo, esse é um grande avanço, senhor Fartengh.

9

Meu nome é Holt Fartengh. Há mais de cinco anos tenho acompanhado meu mentor e tutor Laenor Fartengh em suas missões. Ele é um assassino. Nós fazemos parte da Ordem da Pena Dourada, um grupo de assassinos que seguem a justiça como ela deve ser aplicada. Nosso chefe de operações é Alari Volheim, um mago e criador da nossa organização. Laenor é o primeiro e mais habilidoso membro de todos nós, que totalizamos oito agentes de campo. Durante toda a minha estada com Laenor eu aprendi tudo que um membro deve saber. E hoje chegou a minha vez. Nosso alvo é Kaheri Seth, um mago que está usando magia negra para escravizar pessoas. Além disso, ainda descobrimos que ele é imortal. Há uma semana invadimos sua casa enquanto ele viajava a negócios. Lá encontramos vários escritos em uma língua estranha, enviamos uma cópia deles para que Alari investigasse. Felizmente para nós, o velho Kaheri estava confiante demais nas armadilhas mágicas que deixara em seu porão, mas elas não foram um trabalho para mim. Dentro da Ordem, eu sou o melhor homem para lidar com armadilhas, essa é a única habilidade em que supero Laenor. Nos pergaminhos indecifráveis, estava o motivo da imortalidade de Kaheri: ele fizera uma barganha com espíritos da morte; em troca de um corpo que não conhecesse a morte, mesmo que estraçalhado, o mago fornecera aos espíritos uma quantia de mil almas para sacrifício. Isso explicou o porquê de o mago usar seus poderes para escravizar pessoas. O único modo de quebrar o efeito dos espíritos, segundo Alari, é com o sangue de um deus. Mas Alari é mais influente do que eu jamais pensaria. Ontem de manhã nosso chefe de operações mandou um frasco com um líquido prateado que ele chamou de A Queda de Seth. Hoje é o grande dia. O mago sairá para jantar com um conselho de nobres da cidade. Eu interceptarei seu caminho e o matarei. Laenor, como é de costume, vigiará meus atos.

10

Meu nome é Laenor Fartengh. E eu já morri uma vez.
Minha primeira vida nessa terra não foi boa. Eu nasci em uma família de três irmãos, o caçula de três irmãos. Vida de caçula não é nada fácil, principalmente quando se tem pouco dinheiro. Eu não iria herdar as terras de meu pai, elas eram pequenas e mal dava para uma família com três filhos se sustentar. Quando cheguei aos doze anos de idade, meu pai me enviou a cidade para que encontrasse trabalho. Servi por alguns meses de mensageiro para os freqüentadores da taverna Opala Azul, em Íliev, Reino Branco. Certa vez fui entregar uma mensagem para o ferreiro local para que ele fizesse uma espada para um aventureiro. Ele estava sobrecarregado em seu serviço e me ofereci como ajudante, pensando que o serviço renderia mais do que ser mensageiro. Enganei-me, mas só fui descobrir isso depois da primeira semana ajudando o velho Jord. Apesar de não ser um, o ferreiro parecia muito com um anão, mais baixo que a maioria das pessoas e grande dos lados, mas com uma força no braço que sempre me fazia lembrar que não era algo bom cometer algo digno de castigo. Não desisti do trabalho e ajudei Jord, e com ele aprendi tudo que ele poderia me ensinar sobre forjaria, até ele morrer sete anos depois. Eu ainda me lembro da primeira peça que fiz sozinho, uma adaga que carreguei sempre comigo até o momento de minha morte. Como ele não tinha filhos, assumi o negócio e minha vida financeira finalmente melhorou. Eu podia comprar minha própria comida com trabalho e até sobrava algum dinheiro para experiências na forja. Dessas experiências que descobri uma nova maneira de transformar ferro em aço, de maneira muito mais rápida e eficiente que a convencional. Isso me deu uma vantagem no mercado da forja de Íliev e logo minha fama de ferreiro se espalhou. Antes de ser chamado para trabalhar par um nobre estranho na capital Fardon, eu me casei com uma linda mulher, Aena, seus olhos azuis escuros me lançavam no céu do anoitecer como se eu pudesse voar. Aena me deu uma filha e Lara não tinha nem um ano quando nos mudamos para a capital, a serviço do nobre. Meu serviço em Fardon era fácil, apenas tinha que coordenar alguns outros ferreiros e ensiná-los minhas técnicas e a recompensa era muito maior que qualquer ferreiro poderia ganhar. Aena não precisava trabalhar, nós morávamos na parte nobre da cidade (onde ficava a mansão do nobre Gael Thin e sua imensa forja subterrânea) e minha mulher e filha ficavam ora brincando no jardim, ora admirando a beleza das construções ao redor. A mais bela delas era o Templo de Hurst, com sua torre que quase chegava ao céu. Mais de uma vez tive que subir suas longas escadas até o topo unicamente para que minha pequena filha se satisfizesse com a vista lá de cima. O topo da torre da justiça era nosso lugar secreto, onde o vínculo entre pai e filha era mais forte. Nunca esquecerei aquele lugar. Certo dia, depois do trabalho, ouvi a conversa de dois dos meus subordinados, eles falavam sobre algo ruim. Todas aquelas espadas e escudos não eram para o exército do Reino Branco, como me haviam dito, mas sim para um exército particular de Gael que tentaria dar um golpe de estado e dominar a Capital do Reino Branco. Eles zombavam de mim por nunca ter desconfiado. A ira me dominou. Imediatamente, fui até Gael exigindo explicações. Ele disse calmamente que era verdade, que eu só tinha sido contratado devido minha técnica rápida e ainda ameaçou minha família se eu desistisse do trabalho agora, antes de completá-lo. Eu fiquei chocado. Minha família era mais importante para mim do que meu orgulho e mesmo do que meu país. País este que nunca foi lá muito gentil com o caçula de três filhos. Continuei com o trabalho por mais alguns dias, sem contar a ninguém o ocorrido como me fora exigido. Mas Aena percebeu minha preocupação e me obrigou a contá-la, seus olhos azuis escuros me convenciam do que quisessem. Ela reagiu mal, chamou aquilo de traição e me disse que eu não poderia continuar com aquilo. Nós poderíamos fugir. Mas expliquei que seria tarde demais, a maioria dos ferreiros já tinham aprendido a técnica e completariam o trabalho mesmo que demorassem mais alguns meses. Ela segurou minha cabeça com as duas mãos, fez nossos olhos se encontrarem, disse: “Então você tem que destruir a forja e as armas” e me beijou com todo o sentimento que eu poderia sentir em qualquer vida. Sua presença de corpo e espírito me convenceram de fazer o que era certo. Uma semana depois tudo estava preparado: eu colocaria Aena e Lara em uma carroça para Íliev onde ainda tinha alguns amigos e colocaria fogo na forja queimando a sala dos combustíveis, o fogo seria forte o suficiente para queimar todas as armas que ainda lá estavam e todos os equipamentos de forjaria. E assim foi feito. A forja já queimava forte quando eu saí de lá, tudo estava perdido e os planos de Gael iriam por água a baixo assim que eu fosse ao templo de Hurst e contasse o que estava acontecendo e pedisse abrigo. Eu saí da mansão e tinha uma carroça lá. Minha espinha gelou, aquela carroça já deveria estar a quilômetros dali. Dentro dela existia somente dois corpos ensangüentados, Lara e Aena. Não se pode explicar a dor de um homem ao perder esposa e filha de maneira tão violenta e cruel. Meus gritos ecoaram por todo o bairro. Mas apenas Gael e seus guardas vieram e não era em meu auxílio. O nobre zombara de mim pela minha ignorância, o carroceiro nunca ousaria trair seu senhor e ainda ganhou uma recompensa por entregar a encomenda fresca para que os guardas terminassem o serviço. Meus gritos cessaram. Eu tateava meu próprio corpo de cima a baixo tentando me fazer acreditar que aquilo era um pesadelo. Não era. Mas ao chegar à cintura, na parte de traz da bainha do cinto, encontrei minha primeira adaga, o fio mais fino que o normal. Seu cabo pulou para a minha mão, ele era morno e confortável ao toque. E a ira tomou conta novamente. Dessa vez, cinco soldados assustados e um nobre traidor terminaram mortos. E eu, sem ação. A dor não havia sumido, mas a sensação que depois eu chamaria de choque da primeira morte era intensa. Por mais de um minuto eu fiquei ali parado. Para a minha sorte, ninguém se intrometia nos assuntos de Gael Thin e ninguém viu o rosto de seu assassino. Vaguei sem rumo. Cheguei a uma torre, uma torre que antes me trouxera conforto e felicidade. As portas do templo estavam fechadas, aparentemente Gael corrompera muito mais gente do que eu imaginava ou talvez fosse só minha imaginação. Eu escalei a torre, por um milagre cheguei ao seu topo inteiro. E lá deitei tentando dormir e sonhar com minha filha. Não aconteceu, nunca mais vi as faces de Lara e Aena. Lara. Aena. Aena. Lara. Lara. Aena. Laenor. Desse dia em diante, meu nome seria Laenor, meu sobrenome o sobrenome que minha falecida esposa tinha desistido ao se casar comigo: Fartengh. E por mais alguns meses eu vaguei pela capital do Reino Branco. Roubando para sobreviver. Escalando a torre do Templo de Hurst toda a noite e em seu topo dormir. E finalmente eu decidi que minha próxima descida da torre seria diferente e muito, muito mais rápida…

11

*Laenor andava sobre as casas do bairro nobre de Fardon, como se lembrasse de um passado muito distante. A carruagem que Holt seguia estava a dois quarteirões do mestre assassino, que já começava a sentir as dores da meia idade. Mas enquanto a adrenalina eliminasse as dores, tudo estaria bem. Holt seguia a carruagem de Seth, Laenor seguia Holt. A carruagem fez uma parada não programada, mas não era o momento de agir e alvo não saiu de seu transporte. Eles estavam no limiar do bairro nobre. Laenor sentiu uma sensação estranha vinda de um beco à frente. Holt estava à frente e bem, então o mestre assassino decidiu dar uma rápida olhada. Olhou para baixo, do teto de uma casa de madeira, e sentiu vibrações malignas. Alari já tinha lhe falado de tal coisa, mas ele nunca tinha sentido algo assim, pensou ser coisa de magos. Algo brilhou à luz do luar lá embaixo, iluminando a escuridão. Laenor desceu pesarosamente, a escuridão tentava esmagar seus pulmões. O homem não via nada além da minúscula região clara reluzente. Ele a tocou, era fria. Algo no meio da escuridão se mexeu, Laenor pulou evitando um golpe que ele não via. Mas do som que a criatura fazia ele se lembrava bem. Era o mesmo lobo das trevas que atacara Holt cerca de cinco anos antes*
Há quanto tempo você anda por aí tentando atacar as pessoas desatentas? Se bem que pela sensação desse beco, você deve estar aqui há algum tempo, não é?
*O lobo das trevas tentava novamente atacar Laenor. Mas o assassino acertara em seu pensamento. Aquela criatura estava bem próxima de sua morte. A luz que vira era o reflexo da lua em sua antiga adaga, que ele mesmo fizera, arma que estava fincada no dorso do monstro. Com um movimento rápido, e até um pouco de piedade, Laenor decepou o cão demoníaco*
Acho que isso é meu.
*Laenor tomou de volta para si sua velha adaga, subiu rapidamente no telhado da casa a frente e continuou sua missão*

12

*A carruagem continuou. Tudo parecia perfeito. Quando a carruagem chegou à parte escura da cidade, onde durante o dia acontecia a feira e à noite era uma região semi-deserta, Holt tomou a atitude planejada. Enquanto o veículo passava cuidadosamente ao lado de caixas que sempre sobravam do dia, o jovem assassino adiantou-se, pulou sobre as caixas e pela pequena janela de vidro, entrando no cubículo com rodas. O carroceiro parou a carroça apressadamente*
Serviço feito.
*Holt, então, saiu da carruagem com a adaga em mãos. Foi quando Laenor percebeu que alguma coisa tinha dado errado. Não havia sangue na adaga, ela ainda estava coberta apenas pela substância prateada na qual o mestre assassino também tinha banhado duas flechas, para alguma eventualidade. Holt desceu os degraus devagar, sonâmbulo. Atrás dele veio Kaheri Seth, sua mão direita aberta apontando a palma para a cabeça de Holt*
Droga, ele o pegou.
-Sim, eu o peguei, assassino – uma voz ecoava na mente de Laenor, a voz de Kaheri Seth, uma voz que ele nunca iria esquecer – eu posso ler o destino das pessoas apenas olhando para elas, quer saber o destino desse garoto? Não, acho que posso te mostrar.
*A boca do mago ao longe mexeu-se. Lenor retesou o arco, mas a flecha se recusou a sair de sua mão, ou talvez a mão recusou-se de soltar a flecha. O garoto Holt segurou sua adaga prateada em oposição ao polegar. Sem controlar seus próprios gestos, o jovem assassino começou a perfurar-se com sua própria arma. Nenhum grito, apenas as risadas de Kaheri*
Maldito! Eu vou te matar!
-Não vai não – respondeu Kaheri – deixe-me dar uma olhada para você para saber como devo te matar.
Então me olhe.
*Nesse momento, a flecha pulou do arco e zumbiu até o braço direito de Kaheri que urrou, como se nunca antes tivesse sido atingido. O mago olhou para o franco atirador. Sua expressão de dor e raiva mudou quase que instantaneamente. Como se ele visse algo que não gostaria de ver. Uma segunda flecha esperava no arco. O alvo da primeira gritava algo para o carroceiro e logo pulava dentro do cubículo com rodas. Holt ainda esfaqueava-se*
Maldito!
*A flecha não foi mirada para a carruagem, mas sim para o braço de Holt que segurava a arma agora tingida do próprio sangue. Ela atravessou a carne incontrolável e prendeu-se em uma caixa de madeira. Nesse momento, Holt acordou. Ainda nenhum grito. Ele apenas olhou para a mão que momentos antes não era sua, olhou para Laenor e desfaleceu. O mestre assassino correu rapidamente para seu discípulo. Ele não sangrava mais, mas seu coração ainda batia. Nos locais atingidos pela faca, um fraco brilho prateado circundava os cortes profundos. Laenor correu com Holt para o templo de Tullï, o único lugar que poderia ajudá-los. Mas as vestais que tentaram não conseguiram curar as cicatrizes. Holt acordou horas depois, gritando. Não pela dor, não pela raiva, não pelo fracasso, mas porque suas pernas não se moviam. Laenor pediu e ameaçou todos dentro do templo, mas ninguém conseguiu curar o pobre garoto. Holt nunca mais pode andar enquanto viveu*
-Maldito mago! Como ele descobriu do ataque!? – perguntou Laenor furiosamente quando avistou Alari – Você disse para ele? É alguma espécie de companheirismo de macumba!?
-Eu não tenho nada a ver com isso, Laenor, seja o que for – respondeu calmamente o mago – Onde está Holt? Ele está bem?
-Onde está Holt!? – gritou o assassino – Venha, eu vou te mostrar onde está Holt.
*Laenor guiou o mago até a parte externa da Torre de Ermaras, para o jardim que Holt tanto adorou. E lá estava ele, sentado, não porque queria estar assim, porém*
-Por Ermaras! – exclamou surpreso o mago.
-Foda-se a sua deusa! – retrucou o assassino e acalmou-se um pouco – Ninguém conseguiu curá-lo. Ele nunca mais vai andar.
-Você disse que Kaheri sabia que vocês iriam atacá-lo?
-Sim! – voltou a exaltar-se, segurou firmemente o mago pela gola do robe, e o empurrou para a parede, pressionando o homem de idade com muita força – E agora você vai me contar como ele descobriu! Para que serviram aquelas malditas horas de meditação para sermos notados de um modo ou de outro. E o maldito ainda podia ler nossos destinos. Quem senão você saberia de uma coisa dessas!?
-Eu… – o mago agora parecia em uma mistura de terror e tristeza, sem contar a falta de ar em seus pulmões – Eu não tive nada a ver com isso, Laenor. Eu juro em nome do que você quiser que eu jure. Mas talvez eu possa ajudar o garoto…
-O garoto não quer ajuda – respondeu Laenor, soltando Alari – Eu mencionei que talvez poderíamos trocar o corpo dele com sua magia estúpida, mas ele se recusou. A dor é mais profunda do que as cicatrizes, a dor dele é de vergonha. Por que diabos você foi enviar ele na primeira missão para um sujeito como ele?
-Ele me pediu, Laenor. Kaheri Seth transformou seus pais em escravos e ele escapou por pouco do cão infernal que fora mandado para caçá-lo. O garoto só queria ter a chance de se vingar.
-Não é disso que se trata o nosso trabalho, você sabe muito bem disso. Então…
-Então a culpa é minha tanto quanto é dele.
*O silêncio reinou por uma eternidade de minutos*
-Eu estou bem – disse Holt a distância – Vocês não precisam se preocupar comigo. Eu vou deixar a ordem e, na verdade, tenho pla…
-Cale a boca – disse Laenor carinhosamente – Alari, estamos partindo. Talvez nunca nos encontraremos novamente, então despeça-se do garoto se quiser.
*Laenor e Holt foram para uma cidade do interior chamada Íliev. Lá hospedaram-se no que antes era uma forjaria. Laenor reformou o local e colocou cordas presas nas vigas para que Holt pudesse se deslocar para onde queria dentro da casa sem necessitar da ajuda de ninguém. A jornada de Holt Fartengh havia acabado. A jornada de Laenor Fartengh ainda não*
*Laenor acorda no meio da noite, vindo de um pesadelo horrível. Uma imensidão de memórias lhe invadem o pensamento*
Esse mundo está morrendo…
*Uma carroça em chamas, rodeada de cinco pessoas mortas, Laenor é o único sobrevivente, erguendo-se no meio dos corpos, adaga em mãos*
Não. Por quê? Não sei. Apenas não.
*O ferreiro enganado de Íliev segura sua filha Lara nos braços no topo de uma gigantesca torre. O pai aponta para o horizonte. A filha apenas sorri olhando para ele*
-Quando eu vou poder treinar com o senhor?
*Laenor está preso por correntes no topo de uma casa, lá embaixo, um homem jovem esfaqueia o próprio corpo com uma adaga prateada. Cada golpe, uma faísca. O mestre assassino sente cada golpe ampliado mil vezes*
-Você vai me pagar, assassino de araque? Sabe quanto valiam aqueles soldados?
*Laenor luta bravamente contra uma lâmina encurvada voadora. A arma decepa as mãos do assassino, deixando-o inútil*
-Olha! Você está conseguindo ler minhas decisões ou foi só um bom chute? De qualquer modo, esse é um grande avanço, senhor Fartengh.
*De repente, o assassino recorda-se da noite fatídica. Uma carruagem para em um ponto do bairro nobre. Ela é adentrada por um humano cego. Minutos depois, o deficiente sai com uma bolsa pesada que não portara antes*
Há quanto tempo você anda por aí tentando atacar as pessoas desatentas?
*Laenor enfrenta sozinho uma criatura com corpo de lobo negro e cabeças de Oren Kijar, Adha Higajav, Kaheri Seth e Gael Thin*
Minha vida se reduz a nada.
*Laenor enfrenta vigorosamente o monstro bizarro. Quando ele finalmente acha que venceu, o monstro levanta-se e retalha em pedaços*
Ela segurou minha cabeça com as duas mãos, fez nossos olhos se encontrarem, disse: “Então você tem que destruir a forja e as armas” e me beijou com todo o sentimento que eu poderia sentir em qualquer vida.
*Definitivamente não era hora de desistir*
Eu ainda me lembro da primeira peça que fiz sozinho, uma adaga que carreguei sempre comigo até o momento de minha morte.
*Na verdade, até depois dela. E ela ainda estava lá*
Pela última vez usarei a forja, com um intuito muito mais nobre dessa vez.

13

*A forja estava quente como nunca há seis anos. As marteladas no metal incandescente iluminavam a sala escura. Os rostos de Laenor e Holt pareciam vermelhos naquele fim de tarde*
-Você acha que isso vai dar certo? – perguntou o garoto aleijado – Não parece algo com muita utilidade. Além do que você pode se machucar ao manuseá-la.
-Você pode se machucar mesmo usando armas comuns – respondeu Laenor – Mas acho que, mesmo se não der certo, servirá ao meu propósito.
*Há mais de dez horas o ferreiro trabalhava na sua obra. Muitos inconvenientes se deram até lá. Metal de má qualidade que exigiu dobras de pureza. Os encaixes foram calculados com muita paciência, mas na hora da aplicação estavam emperrando, necessitavam de ajustes. As tiras de couro, por conseqüência, tiveram de ser remodeladas e fortificadas. Mas agora só faltava a lâmina. Para ela, Laenor tinha uma pretensão bem pensada. Depois de dez meses, tudo estava indo conforme o planejado. A adaga que Laenor construíra ainda na adolescência não mais seria guardada em uma bainha de couro, mas teria um alojamento metálico cheio de molas e engrenagens*
-Pronto – disse finalmente – A parte da forma está bem encaminhada, agora só falta o último detalhe antes de terminar.
-O que é isso? – perguntou Holt apontando para um frasco fosco que Laenor pegava em uma gaveta ao lado.
-Ainda sobrou um pouco daquela vez, vou usar nessa arma – Laenor abriu o pequeno frasco e depositou o líquido prateado mortal na lâmina ainda quente. No entanto, nenhum vapor subiu. – Você ainda tem a sua adaga daquele dia?
-Sim. E ainda está prateada… Entendi o que você quer fazer. Muito esperto, chefe.
-Eu tive algumas revelações nesses últimos meses. Essa manopla com lâmina retrátil foi apenas uma delas.
-Você não desiste de tentar pegar o desgraçado, não é?
-Eu já o peguei. Ele que ainda não descobriu isso. Mas isso mudará em breve.
*Dessa vez, a cada martelada do ferreiro, a forja simplesmente se tornava mais clara que durante o dia. Holt parecia muito surpreso. Laenor apenas continuou o que estava fazendo*

14

*É uma noite de inverno na casa dos Seth. A neve cai lá fora e Kaheri está jantando com sua filha Loenin. A mãe de Loenin era uma vestal que foi abusada sexualmente pelo mago controlador e logo depois cometeu suicídio ao se dar conta que tinha quebrado seu voto. A pobre Loenin era filha de duas criaturas impuras, mas sempre foi bem tratada pelo pai, pois este esperava que a menina manifestasse poderes superiores dado sua genealogia. Poderes que não se manifestaram até então. Poderes que nunca que manifestariam*
-Senhor – disse a serva e esperou, continuou apenas quando Kaheri fez sinal positivo com a cabeça – O senhor Damash chegou e quer falar com o senhor. Ele disse que é urgente.
*O encontro com Bald Damash seria uma hora depois daquele jantar. Mas o velho andarilho do deserto, que muitas vezes já ajudara os Seth em seus negócios de comércio de escravos, não costumava se adiantar. A não ser que algo tivesse acontecido*
-Damash? – perguntou Kaheri sem esperar resposta – mande-o entrar. E feche a porta.
*Minutos depois um homem com um manto bege todo empoeirado adentrou a sala de jantar sem janelas e de mesa farta, mal tocada pelos anfitriões. A serva dos Seth saiu apressadamente e fechou a porta dupla de madeira reforçada atrás de si. Nesta havia quatro ganchos que serviam para segurar uma trava de madeira grossa, que estava ao lado*
-O que aconteceu, Damash? – perguntou Kaheri curioso – O que te faz interromper meu jantar familiar com tanta urgência?
*Bald Damash deu de ombros, virou-se de costas para o mago e foi até a grande viga de madeira que serviria de trava em alguma ocupação da mansão*
-O que foi, Damash? Está me deixando preocupado. Fale logo homem.
*O andarilho do deserto pegou com dificuldade a trava gigantesca e arrastou-a até a porta*
-O que está fazendo?
*Quando a trava finalmente cumpria sua função na porta, Damash virou-se de novo para seu anfitrião. Sua filha o olhava com olhos assustados. E finalmente Damash retirou seu manto sujo. Mas a pessoa que estava debaixo deste não era Damash*
-Você!? Mas como!? - surpreendeu-se apenas um pouco o nobre mágico – Hum… Aquele cego maldito vai me pagar por não vir me avisar disso.
-Sinto muito, mas acho que ele não vai poder te pagar – respondeu Laenor, retirando a espada longa – Não nesse mundo, pelo menos.
-Muito esperto, assassino de araque, mas você ainda não pode contra mim, principalmente sem o garoto aleijado.
*Laenor gritou, partiu para cima do mago que se levantava. Mas a jovem Loenin Seth interceptou seu caminho, braços abertos*
-Saia da frente, garota.
-N-Não – sussurrou tremendo a menina.
*Então, Laenor tomou-a pelo braço e arremessou-a para o lado, limpando seu caminho. Mas Kaheri já tinha levantado e apontava a palma da mão direita para o assassino*
-Você agora é meu! – disse o mago. Nada aconteceu
-Rosa Negra – disse Laenor – Já ouviu falar dessa flor que nasce no continente gelado? Ela tem propriedades interessantíssimas. Devo agradecer seu cozinheiro que não teve problema nenhum de colocá-la em seu ensopado preferido. Aliás, todos os seus empregados ficaram bastante felizes quando eu os libertei da sua maldição com a poção que alguns amigos seu do templo de Hurst me deram.
*O mago estava perplexo. Sua expressão de calma mudou radicalmente para um misto de raiva, surpresa e medo*
-Guardas! – gritou ele.
-Mortos – disse calmamente Laenor, aproximando-se – Sinto muito.
-Você não pode me matar – agora o mago Seth parecia beirar à insanidade – Eu sou imortal – e riu.
*Laenor fincou sua espada no ombro esquerdo de Kaheri e o empurrou de volta até a cabeceira da mesa onde se sentava momentos antes. Laenor empurrou mais ainda, o mago gritava de dor a cada movimento, e a espada trespassou a carne e ficou presa na madeira*
-Eu te disse, maldito. EU SOU IMORTAL! – as risadas agora eram completamente histéricas.
-Eu sei – disse o assassino – também estava preparado para isso.
*O assassino fez um movimento rápido com a mão direita. Da manopla que existia ali, saltou uma lâmina fina prateada. Seu fio parecia mais afiado que a morte*
-Morra Kaheri Seth. E que sua alma seja amaldiçoada no submundo.
*A lâmina fina penetrou o peito do mago, perfurando seu coração. Ao invés de sangue, saiu uma espécie de fumaça negra e densa. Ela saia aos montes, como se não existisse carne naquele corpo imundo. Kaheri remexeu-se mais um pouco até que, enfim, soltou o último suspiro*
-Agora você sabe – disse o assassino distraidamente.
*Ao lado do homem morto, que se tornava apenas um esqueleto coberto de pele, Loenin Seth chorava. Laenor olhou para ela e disse:*
-Acredite filha, eu lhe fiz um bem.
*Laenor saiu da mansão calmamente. Seu plano foi mais do que bem sucedido. Ainda assim, suas costas doíam. Agora, o mestre assassino e primeiro de uma Ordem de redentores só tinha um lugar para ir antes de desaparecer para sempre*

15

*Dias depois, Laenor apareceu pela última vez na Torre de Ermaras. Alari estava a sua espera. Eles conversavam no jardim*
-Você fez um ótimo trabalho com o Seth, Laenor.
-Acho que foi tarde demais.
-Não acho não, pelo menos para a ordem.
-Não agi pela ordem naquele momento. Você sabe disso. Nem ao mesmo deixei a pena dourada lá.
-Não importa, mesmo que ninguém mais saiba. Enquanto eu souber, vou contar para todos da Ordem da Pena Dourada que você foi o primeiro integrante do ideal de justiça e o único a matar um imortal tão poderoso.
-Isso não dá as pernas de volta ao garoto.
-E como ele está?
-Bem, eu o ensinei a forjaria. Ele está se saindo muito bem mesmo sem as pernas.
-Ele é um bom garoto. Mas garanto que essa conversa não foi o único motivo de você ter vindo aqui, não é mestre assassino?
-Realmente não é. É para lhe informar que não serei mais chamado de mestre assassino, estou deixando a ordem.
-Olhe, isso não precisa acontecer, meu amigo, nós sempre precisaremos de você, nem que seja para treinar os membros e…
-Não, Alari. Eu estou velho e cansado dessa vida dura. Vou pegar o dinheiro que juntei até agora e sair por aí. Quem sabe comprar um pedaço de terra e viver tranqüilo até que o outro mundo me chame.
-Entendo sua decisão e a aceito com pesar.
-Ah sim, eu tenho algo para você. Algo para lhe lembrar que eu e o garoto existimos e algo que pode ser muito útil para os membros – Laenor tirou de sua bolsa a manopla com lâmina retrátil e entregou ao mago – Eu chamo de Punho da Redenção. Este foi Holt que fez.
-Eu não preciso disto para me lembrar de vocês, mas com certeza isso será muito útil para os seus sucessores. E quem sabe um dia alguns deles não o ultrapasse.
-Tenho certeza que ultrapassarão.
*Os velhos amigos trocaram o último abraço. Laenor virou-se para o norte, então, e saiu sem olhar para trás. Fora a última vez que Alari o vira. Fora a última vez que ele fora visto de qualquer forma*

E assim termina a crônica do primeiro assassino da Ordem da Pena Dourada e talvez o maior entre eles.
Autor: Cássio

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