O General

1 - A Decisão

- Você não pode fazer isso. Eles não vão entender. Você vai acabar preso e a Milícia de Prata, desestabilizada.
- Eu sei bem dos riscos, Kírian, mas eu preciso fazer isso. Nunca me perdoaria se o Reino Branco caísse sem que eu ajudasse. Eu me tornei membro da guarda real por um motivo: sou eternamente leal ao meu Rei. E não acho que a Milícia de Prata sofreria a minha morte mais do que a de qualquer um dos líderes, talvez uma arma importante perdida, mas só isso.
- Leve Haien ao menos.
- Uma arma não me será de serventia. Só atrapalharia as coisas. Minha armadura é o único símbolo que eu preciso.
- Mas Dárion…
- Fique tranqüilo, meu amigo. E, enquanto eu estiver fora, você será o encarregado. Você sabe o que fazer. E isso é uma ordem.
- Sim, senhor!

2 - O Escudeiro

Com a ajuda de Silmë, Dárion foi transportado rapidamente para a entrada da cidade de Fardon. Só levou consigo um novato, chamado Ythan, como seu escudeiro. Assim como Dárion, Ythan começou sua carreira na Milícia da Grande Capital, emprego que ficou feliz de descartar para andar ao lado do grande Dárion Galafer.
O jovem guerreiro estacou quando Dárion se desviou da estrada principal que levaria direto ao castelo do Rei Omein.
- Onde vamos senhor?
- Para o nosso antigo quartel general.
- Mas eles devem estar guardando o local, justamente esperando que voltemos. Isso não nos colocaria em perigo?
- Justamente. Mesmo com toda a minha influência, duvido que os guardas do castelo nos deixem entrar, eles são treinados para isso, e são jovens que acabam de entrar na guarda real e, portanto, não me conhecem. Se nos entregarmos no esconderijo, vai ser mais fácil de se conseguir uma audiência urgente com nosso Rei.
- E se eles nos atacarem?
- Sua espada nos defenderá.
- Mas eu sou apenas um novato, como o senhor pode saber que serei o suficiente para derrotar um pequeno exército de milicianos?
- Eu não sei. Mas, na pior das hipóteses, descobriremos.
- É brincadeira, não é?
- Sim e não.
- …
- Sim, eu não quero descobrir suas habilidades desse jeito e não porque ainda assim nos entregaremos para a Milícia de Fardon no antigo esconderijo.
- Ah… Ok, senhor!

3 - Haien

Ythan era um jovem impetuoso, sempre o primeiro a sacar a espada e o último a parar de lutar, além de muito curioso e até um tanto impaciente por conhecimento marcial.
- Senhor Dárion.
- Sim?
- Como o senhor adquiriu Haien?
- Eu não a adquiri.
- Como assim?
- Haien é um ser pensante, apesar de não falar muito.
- Ok, então como o senhor a encontrou?
- Eu estava na Guerra do Norte naquela época. Foi há pouco mais de vinte e cinco anos atrás. Sempre tive uma predileção por lanças. Quando eu ouvi do bardo que atravessava o acampamento dos soldados, provavelmente procurando histórias e tirar vantagem para ganhar uns trocados, que existia uma lança extremamente poderosa em uma caverna da região fiquei bastante ansioso para encontrá-la.
- Mas a Guerra do Norte não foi há dez anos atrás? Eu fiquei sabendo que ela durou menos de um ano.
- É isso que as pessoas comuns pensam. O antigo Rei, no entanto, sabia que o reino Vrudull estava planejando algo. Aliás, foi com o Rei Reinth que eu aprendi como pensar adiante, pouco mas aprendi. Ele mandou alguns dos seus homens de confiança para irem até o reino disfarçados como soldados de Vallunil, com quem Vrudull estava em guerra na ocasião, para descobrirmos informações sobre o Punho Sangrento e suas intenções.
- Punho Sangrento?
- É como Vrudull chama seu Rei.
- Ah, continue.
- Enfim, o tal bardo disse que existia uma caverna lá onde estava uma lança sagrada. Ela era dourada e guardada por um guardião espiritual. Dizia lenda que a arma estava esperando que um guerreiro digno de sua força clamasse sua posse e de seus poderes inimagináveis. Eu, que tinha lá pelos meus vinte anos…
- Vinte anos?
- Ok, ok, talvez eu tivesse um pouco mais. De qualquer modo, eu era impetuoso como você. Não pensei duas vezes em ir dar uma passada na tal caverna.
- E como você convenceu Haien e o guardião que você era digno?
- O bardo havia mentido. Não encontrei nada na caverna, a não ser um bando de kobolds desocupados, contando o quanto de moedas tinham roubado no último saque. Eles ficaram surpresos em me ver e me atacaram de imediato…
- Pobres Kobolds.
- Pobre de mim. Aqueles malditos quase me matam!
- Mas como!?
- Nunca subestime seus inimigos. Eu disse que eles tinham feito um roubo, não disse? O que eu não mencionei é que a quantidade de moedas que eles estavam contando chegava a minha cintura. Ninguém que é estúpido e fraco, como a maioria das pessoas pensam que os Kobolds são, pode roubar tanto assim.
- Você está de brincadeira comigo, não é!?
- Não. Aqueles Kobolds pareciam conhecer bem magia, eles seguiam o deus dragão Varkast e tinham um serviçal divino poderoso entre eles.
- Espere aí! Varkast não está morto? E kobolds servindo o deus dos dragões? Não tem algo errado aí?
- Varkast não está morto, mas em um estado de estase, mas o motivo daria outra história mais longa que essa. E os Kobolds acreditam que eles são descendentes dos dragões.
- Hum… Ok, continue a história.
- Enfim, eu consegui escapar por pouco, mas para isso tive de me embrenhar na floresta Hyven. E fiquei perdido por dias, aquela floresta é traiçoeira, lembre-se disso se tiver que passar por lá. Mas certa noite, eu tive um pressentimento. Algo me dizia para onde ir. Tempos depois achei que fosse a própria Haien, mas ela nunca confirmou…

4

“O jovem Dárion perambulava há duas horas seguindo a voz misteriosa que parecia vir de toda a árvore e planta para a qual ele dava as costas. Suas reservas de rações estavam no fim, ele não passaria mais dois dias sem sentir o início da fonte. O jovem Galafer era muito diferente do senhor que ele viria a se tornar: tinha a barba bem aparada e os cabelos ainda inteiros negros, os olhos ainda exalavam o brilho da juventude, prontos para todo e qualquer desafio. No entanto, mesmo com sua impetuosidade e falta de experiência comparadas ao seu eu posterior, Dárion era um exímio guerreiro. Seu corpo nunca mais estaria tão próximo da perfeição pessoal.
A voz o levou até um vale, formado por uma depressão que apareceu do nada no meio da Floresta Hyven. A cicatriz natural parecia se prolongar por algumas centenas de metros apenas, mas sua profundidade chegava a cerca de vinte metros. Dárion teria que escalar. A descida é sempre a parte mais fácil e foi transposta facilmente. Lá embaixo, o jovem soldado encontrou uma nascente que aparentemente vinha de uma gruta cuja entrada era bem estreita. A voz vinha daquele buraco na rocha esverdeada de musgo. Com um pouco de dificuldade, Dárion adentrou a caverna. Esta continuou apertada por alguns metros, mas logo espalhou-se em um grande salão aparentemente redondo. Com uma tocha em mãos, o soldado avançou até o centro do salão. E lá ele a encontrou.
Haien estava cravada torta no chão de pedra escura. O reflexo da luz da tocha a fazia brilhar como o sol. Dárion se aproximou da arma dourada. Agora ele via seus detalhes: as quatro lâminas cortantes, ao invés das costumeiras duas, das duas pontas adicionais partiam fios atrelados à empunhadura da arma, seguiam até a base do cabo que estava fincada na rocha. Quando o soldado prestou atenção no ponto onde o metal dourado e o chão irregular se encontravam, percebeu que não haviam trincos no chão, como se a arma tivesse entrado na rocha como se esta fosse manteiga. Deste ponto de encontro saiu uma fumaça amarelada, que foi tornando-se maior e mais dourada. Dárion tinha finalmente encontrado o guardião de Haien.”

5

“- Quem adentra os meus domínios?
- Sou Dárion Galafer e vim para tornar essa lança uma de minhas posses.
- Essa lança tem nome e não é um simples objeto que possa ser tomado.
- O que diz?
A fumaça dourada foi tomando a forma de um ser humanóide, sem face e sem genitália. Ele tirou a lança do chão como se este fosse líquido.
- Eu sou Haien. Tenho estas duas formas. Você vem até o meu território e tenta roubar meus corpo e alma. Por que faz isso, guerreiro? Por que acha que é digno do meu poder?
- Não sei se sou digno.
- Veio aqui só para morrer então?
- Tampouco.
- Quais são suas últimas palavras?
Dárion e Haien se colocaram em posição de combate. Logo no primeiro golpe, o ser dourado ultrapassou muitas vezes a velocidade do guerreiro que teve a perna trespassada pela ponta quádrupla. O jovem nada podia fazer já que não tivera nem tempo de reagir e agora o oponente estava muito próximo para usar sua arma de haste.
- COMO SE ATREVE MORTAL!? COMO SE ATREVE A TENTAR ME ENFRENTAR SEM AO MENOS TER DESENVOLVIDO TOTALMENTE SEU CORPO E MENTE?
- Argh…
Como uma tentativa de afastar o oponente, Dárion realiza um soco com toda sua força na criatura-lança. Ela parecia feita de músculos, mas no momento que pele humano tocou a estrutura facial dourada, os dedos do soldado quase quebraram.
- NÃO CREIO QUE MEU PRIMEIRO INIMIGO EM MIL ANOS É TÃO FRACO!
Para finalizar a frase, Haien tirou a lança dourada da perna do homem e lhe deu um tapa com as costas da mão esquerda. Dárion, como da primeira vez, quase não conseguiu ver os movimentos inimigos. A força era titânica. Dárion soltou sua arma enquanto era lançado a quase seis metros de distância do golpeador. O jovem soldado não cria em tamanho poder. Com relutância e dificuldade por causa da perna ferida, que expelia sangue um líquido dourado e viscoso, o guerreiro levantou-se. A criatura apenas o observou enquanto ele capengava procurando a saída que estava em outra direção, seu cérebro estava dopado pelo ferimento.
- Aonde você vai? Acha que pode fugir? Eu não preciso dar nem mais um passo para lhe enfrentar.
Tomado por um instante de clareza, Dárion corrigiu seu curso para a entrada da maldita gruta.
- Não, você veio aqui por um motivo. E já vi que não foi por causa da sua capacidade de combate. O que será que a Dama do Destino quer dizer quando coloca alguém como você na minha frente?
O soldado, encontrando no monólogo da criatura um pingo de esperança, continuou sua fuga.
- Eu vejo que sua mente é forte, mas ainda assim não boa o suficiente para me surpreender. Será sua alma o motivo então? Mas o que eu poderia aprender com a alma simplória de um mortal? Você não é nem um daqueles que não morrem. Quem dera eu pudesse ter caído nas mãos de Tiron ou Saren…
A pequena entrada estava agora a frente de Dárion. Ele se abaixou, gemendo um pouco.
- Aonde você pensa que vai?
Haien apontou a lança dourada para o humano a vários metros de distância. As duas pontas extras soltaram-se como se fossem virotes e a linha dourada desprendeu-se do cabo. O soldado foi pego de surpresa e pelas costas. Os projéteis ultrapassaram seu corpo. A fina corda retesou-se enquanto seu portador puxava somente com uma mão. A princípio, Dárion moveu-se apenas alguns centímetros, mas logo ele foi jogado para cima de seu adversário que aproveitou a chance para cravar novamente a poderosa arma no humano, dessa vez no estômago, muito próximo da coluna vertebral. Dárion não tinha mais forças para gritar. O que saiu de seus lábios foi apenas um grunhido. Haien retirou sua garra dourada, deixando o corpo do soldado cair e virou-o com o pé, para poder encará-lo.
- Seja por que diabos nosso destino se cruza, eu quero descobrir. Mas não vai ser tão fácil assim. Você vai ter que passar no meu teste. Será que você agüenta o poder? Será que você agüenta o conhecimento?
E a criatura fincou sua lança de quatro lâminas no coração de Dárion.”

6

- E então eu fiquei a beira da morte por um ano e meio. Mas eu sobrevivi e aqui estou… tentando me entregar de bandeja para a Guarda Real… a vida é irônica.
- Uau! Que história hein…
- Pois é, às vezes eu até penso em escrever um livro…
- Que merda de história!
- O que!?
- E eu achando que você tinha conquistado Haien em uma batalha épica contra um zilhão de demônios que foram derrotados um a um, finalizando com o grandioso Dárion Galafer triunfante e orgulhoso sobre uma pilha de corpos pútridos…
- Hunf… A vida não é assim garoto.
- Ah, agora que eu sei a verdade, você não é grande coisa…
- Olha o respeito! Ainda sou seu superior e posso te derrotar com as mãos nas costas.
- Ah, deixe de bobagem, sem Haien você não é nada mais que falácia.
Sem usar nenhuma das mãos, Dárion deixou o pé no caminho de Ythan e, com um golpe de corpo, levou o jovem direto ao chão. Para finalizar a humilhação do discípulo, o General pisou no pescoço do homem caído.
- Subestime seu inimigo e você está fadado ao fracasso. Claro que Haien é uma arma muito poderosa, mas eu também tenho meus truques, garoto tolo. E a minha “falácia” ainda vai salvar sua vida um dia. Estamos entendidos?
- Sim senhor!
Presos com Classe

7

- Quem são Tiron e Saren?
- Como?
- No monólogo de Haien, ela disse que queria ter pertencido a um desses dois, mas eu nunca ouvi falar deles.
- Ah. São Imortais.
- Como nossos inimigos?
- Definitivamente não. Eles são Grandes Imortais. Eles realmente nunca morrem, ou assim se pensa. Nossos inimigos podem morrer sim, como já descobrimos.
- Já que eles são Imortais desse jeito, onde eles estão agora?
- Ninguém sabe. Eles desapareceram na Era dos Deuses. Dizem que Lárin os expulsou porque eles eram uma ameaça ao destino do mundo, outros dizem que eles estão viajando entre os infinitos planos a procura de um inimigo a altura. Mas não existem provas de nada.
- Que pena, se nós conseguíssemos convencê-los a nos ajudar…
- Não podemos depender de entidades superiores para cuidar das coisas que nos afligem. Nem os deuses, nem qualquer outra coisa vai nos ajudar.
- Parece que chegamos.
- Prepare-se e não saque arma alguma a não ser que eu te diga para fazê-lo.
- E se eles nos atacarem?
- Deixe comigo.
- Sim senhor!

8

Dárion e Ythan tinham andado pela cidade por quase uma hora e finalmente chegaram a uma mansão que ocupava quase um quarteirão da parte rica de Fardon. Apesar da grandiosidade, a construção estava abandonada e já começava a apresentar indícios das intempéries e de vandalismos, raros na região. O portão principal era de ferro resistente e ainda prostrava-se imponente, porém destrancado, diante do caminho de pedras delicadamente construído em S através do que poderia ser um belo jardim antes, mas agora era apenas um matagal com algumas árvores espalhadas aleatoriamente. Dárion foi o primeiro a entrar e o jovem logo o seguiu de cabeça baixa. A porta da casa havia sido tirada do lugar e se encontrava jogada e mofando sobre o mato alto. Lá dentro, eles encontraram um salão digno da realeza, não fosse pelo tratamento descuidado dos últimos anos. Não passaram por muitos ambientes para chegarem na sala de armas, cujas existências já haviam desaparecido, mas a estátua que o General procurava ainda estava lá. Era um monumento em honra de Askardin, o Deus da Guerra. Na empunhadura da lâmina que o deus levantava sobre a cabeça, existia um botão. O mecanismo ativou uma série de engrenagens, ao contrário da mansão muito bem cuidadas, e a grande estátua mexeu-se para frente, liberando a escada antes invisível. Logo a sala se encontrava novamente vazia, e as engrenagens levavam a estátua de Askardin de volta ao seu lugar.
Depois de andar por alguns minutos num complexo de túneis, que antes serviam para o transporte de água em um momento que o Rei Fernil tentava trazer novas tecnologias para o Reino Branco, os guerreiros finalmente chegaram à porta de ferro, esta trancada, que levava ao esconderijo da Milícia de Prata.
- Prepare-se. Siga minhas ordens e não fale nada e tudo vai dar certo – disse Dárion.
- Sim, senhor. – limitou-se a dizer Ythan, mas ele não parecia muito satisfeito e tinha uma mão no cabo da espada, mas logo desistiu do gesto dado ao olhar desaprovador de seu superior.
E Dárion abriu a porta com uma pesada chave metálica de formato muito exótico, provavelmente para frustrar tentativas de arrombamento. De dentro do pequeno túnel que se abriu diante de seus olhos, surgiu uma fraca luz de tochas e o barulho de um grito e um tropel de passos apressados. Não demorou nem meio minuto para que eles estivessem diante de dez guerreiros que se espremiam nos quatro metros do corredor, apontando ameaçadoramente suas lanças para os “invasores”.
Ythan estava nervoso e a mão voltara à espada. Mas Dárion gentilmente afastou-a da arma e deu um paço a frente. A lança do soldado mais próximo estava a menos de um centímetro de seu peito, mas ela tremia. Mesmo cercado e desarmado, a expressão serena e obstinada do General era suficiente para tirar a concentração daqueles soldados, provavelmente com menos da metade de sua idade. Foi o experiente guerreiro que falou primeiro:
- Sou Dárion Galafer e sou responsável por este lugar e também líder da Milícia de Prata que aqui se instala. Levem-me ao rei.
- Ge-general?
Um homem, muito mais velho que aqueles portadores de lanças, abriu espaço entre seus homens, era claro que ele os liderava. Ele parecia incrédulo. Mas não era só isso. Ele parecia feliz, não por estar prestes a prender o líder da Milícia de Prata, mas sim como se estivesse reencontrando um amigo. Um professor, para falar a verdade.

9

- Karamar – respondeu Dárion menos surpreso que o líder da milícia – você envelheceu muito.
- E o senhor continua o mesmo – disse, abrindo caminho entre as lanças e obrigando que suas pontas tomassem uma posição mais branda – É verdade que você é líder da Milícia Prateada?
- Sim.
- Mas como!? Eu achei que o senhor estava aposentado em uma fazenda atravessando o grande rio.
- Muito mudou. Mas prefiro poupar as explicações para o Rei.
- Mas eu tenho ordens de prender imediatamente qualquer suspeito envolvido com a Milícia de Prata.
As lanças novamente se levantaram, a espada de Ythan pulou instantaneamente para suas mãos. Karamar e Dárion permaneceram impassíveis. Depois de um breve momento de tensão, o General direcionou seu olhar severo para o jovem que o acompanhava juntamente com um toque de mão no braço que empunhava a arma. Não era momento para aquilo. Karamar fitou o chão de pedra, pensativo. Finalmente levantou a cabeça, sorriso no rosto.
- Minhas ordens dizem para prendê-los, mas não especificam para onde levá-los. Os acompanharei diretamente para o rei, acredito que não haja lugar mais protegido que o palácio. O que acontece depois está por sua conta, general… quer dizer, Dárion Galafer.
- Não poderia esperar menos de você – respondeu o experiente guerreiro, satisfeito.
O caminho até o Palácio Real foi estranho para Ythan, ele nunca havia sido preso na vida. Estranhava a escolta e o motivo de não ter sido revistado ou mesmo desarmado. Dárion e Karamar pareciam estar caminhando normalmente pela cidade, como se fossem bons amigos e nada tivesse acontecido. Ao que o jovem guerreiro pôde perceber, o líder dos lanceiros havia sido aprendiz de Galafer.
- Como você se meteu nessa, general?
- Há aproximadamente 5 anos, eu estava viajando para o norte com minha família, em visita a um amigo que morava no deserto Sin-Ol. Presenciei o primeiro ataque do Exército Zan com suas bombas e aliados imortais. Meu filho morreu nessa batalha… – Dárion parecia triste, como era de se esperar, mas o mais surpreendente foi que aquela era a primeira vez que Ythan ouvia a história do começo da milícia.
- Sinto muito, general – disse Karamar, com evidente compaixão.
- Eu também, soldado, eu também. Mas a raiva foi maior, Haien reagiu à minha fúria e a pequena cidade foi apagada do mapa – o jovem soldado estacou imediatamente, nunca poderia imaginar que o poder da lança dourada fosse tão grande. – O que foi, Ythan?
- Nada, senhor – respondeu o guerreiro e pôs-se novamente a andar.
- E foi aí que tudo começou.
O palácio ergueu-se majestoso diante deles. Dentro de poucos minutos, Ythan teria o seu primeiro encontro com um verdadeiro Rei.

10 - Omein

O Rei Omein era um homem já passado dos cinqüenta anos. No Sala do Trono, na qual Ythan estava muito desconfortável pois não poderiam ser portadas armas, ele se destacava no luxo e brilho dos inúmeros detalhes a outro, prata e pedras preciosas. O velho monarca usava uma capa vermelha, simples perto do trono de ouro branco maciço, sem ornamentos. Seus cabelos brancos, mais pela pressão do cargo do que pela idade avançada provavelmente, eram longos e presos em uma trança cuidadosamente amarrada com um pedaço de seda branca. Seu único olho verde, pois o outro havia sido perdido em uma armadilha causada por um grupo rebelde do Reino de Unst e não tinha cor sequer, espelhava sabedoria e grande paciência. Seu rosto com rugas proeminentes não mostravam expressão sequer ao ver que seu “prisioneiro” era Dárion Galafer, o antigo líder de sua Guarda Real, mas ao passar pelo rosto jovem de Ythan expressou um quase sorriso, o que embaraçou o guerreiro e o fez sentir ainda menor naquele enorme salão. As mãos do rei eram a única parte do seu corpo, além do rosto, que sobressaía da capa. Quando o fim do corredor de guardas de elite acabou estavam apenas Karamar, Dárion e Ythan frente a frente com o soberano mais poderoso de Faralchar. Todos se ajoelharam e levaram a mão direita ao peito, um símbolo de respeito e desejo de vida longa ao Rei.
- Levantem-se – disse Omein, sua voz era como a do avô de Ythan: de tom baixo e doce – Então meu antigo amigo e quem me salvou a vida tantas vezes era o líder da Milícia de Prata?
- Exatamente, vossa majestade – respondeu prontamente Dárion.
- E agora você se entrega de bandeja, vindo acompanhado apenas de um escudeiro?
- Na verdade, majestade, Ythan é mais do que um escudeiro – o jovem ficou surpreso com a resposta, se não era para ser escudeiro, o que ele seria então?
- Me diga o por quê, General.
- Pois eu tenho plena certeza que o senhor está ciente das ações do Exército Zan e venho sinceramente pedir e oferecer a minha ajuda.
- Não acha que isso é muita arrogância de sua parte? – perguntou o rei sem alteração na voz, tom seguido por Dárion.
- De modo algum, majestade. Acredito que as transgressões minhas e dos meus são nada comparado à ameaça do Inimigo. E posso garantir, em nome da minha honra e minha vida, que o único motivo de existência da Milícia de Prata é impedir a concretização dos planos do Culto dos Imortais e de seu aparente aliado, o Exército Zan. Eu poderia continuar guiando a Milícia da maneira que venho até então, mas agora é inevitável o confronto direto e de larga escala. E, tendo em vista que não tenho o contingente de homens necessário para guerra aberta, mas tenho muitas informações sobre nossos inimigos, então depois de profundas considerações e análise de riscos, resolvi acreditar na integridade e desejo de proteger os cidadãos de vossa majestade acima dos deveres de punir uma organização que nunca machucou um inocente sequer, ao contrário, só salvou vidas.
- Entendo – o Rei pareceu pensar por um momento – Você não cansa de me trazer problemas, não é General?
- Se esse for o meu dever, majestade.
- Muito bem, entenda que eu ainda não aceitei sua proposta, mas eu quero saber como você planeja enfrentar esse inimigo.
- Em primeiro lugar, majestade, eu sugiro a reativação do Esquadrão Suicida.
Agora o rei ficou surpreso e uma ponta de excitação veio a sua face enrugada, seus olhos ganharam nova vida.
- Os Cachorros Loucos!?

11 - Esquadrão Suicida

Os meses que se passaram logo a seguida foram estranhos para Ythan. Dárion conseguiu, quase como milagre, convencer o Rei Omein do Reino Branco a retirar as queixas sobre a Milícia de Prata em troca de ajuda contra o Exército Zan. A primeira missão que se seguiu foi o recrutamento dos antigos e novos membros do Esquadrão Suicida, conhecidos popularmente como Cachorros Loucos. Coube a Dárion e Ythan essa tarefa, que durou menos de um mês. Aparentemente, todos os integrantes eram encrenqueiros natos, e adoraram a proposta de poder se divertir novamente. O primeiro convocado foi um velho chamado Gaja, um guerreiro clássico como se poderia colocar… tirando o fato de ser cego e com mais cicatrizes do que pele inteira. Gaja já era soldado quando Dárion começou nos postos baixos da milícia de Fardon. Teoricamente, deveria ter mais de noventa anos, mas Dárion disse que sua aparência nunca mudou desde que o conheceu. O soldado cego era um homem de pose severa e bom de conversa. O fato de ele ter sido encontrado em um dos bordéis de Fardon trabalhando como segurança comprovou isso, mais precisamente ele foi encontrado dando um trato em dois aventureiros iniciantes que se achavam famosos e não queriam pagar pelo serviço das “meninas” do local. Gaja pediu demissão assim que viu Dárion e o insultou por ter demorado tanto para chamá-lo para um negócio, mesmo que o general jurasse que nada tinha sido combinado anteriormente.
Segundo o líder da Milícia de Prata, Gaja era um verdadeiro corvo de campo de batalha. Sempre o primeiro a entrar no combate e o último a sair. Cada cicatriz em seu corpo tinha pelo menos cinco histórias relacionadas. Ele era o capitão do Esquadrão Suicida, muitas mortes sobre suas costas e nem sinal de cansaço. Quando conversava com Ythan, ele parecia estar interessado no engrandecimento do rapaz por um motivo misterioso. E o jovem guerreiro teve muitas chances de conversar com Gaja, pois ele foi o primeiro escalado por Dárion para os novos recrutas. O recrutamento o assustou, pois segundo as histórias de Dárion e Gaja, não se encaixava nem um pouco nos requisitos para ser um Cachorro Louco. Uma insegurança se formou em sua mente e só aumentou com os recrutamentos que se seguiam:

•Kerion: um anão meio-imortal que usava como arma uma espada negra e era mudo. Da primeira vez que encontrou Dárion, eles se engalfinharam, pois aparentemente tinham uma rixa antiga.

•Daemon: Assumiu um nome demoníaco em nome de sua foice longa enferrujada devido ao sangue de seus inimigos. Para Ythan a arma não poderia ser capaz de cortar coisa alguma, mas durante os combates, Daemon movia-se com agilidade sobrenatural e sempre com um sorriso maníaco na face.

** •Loien:** À primeira vista, Ythan achou que o elfo fosse como ele, não se encaixando nem um pouco no Esquadrão. Sua opinião mudou em uma briga de bar. Um anão esbarrou em Loien, embriagado, e procurou confusão com o elfo arqueiro. Quando sua primeira gota de sangue foi ao chão, Loien foi possuído por uma espécie de aura maligna e teria destruído a taverna inteira se Gaja não o impedisse.

** •Roitger:** um espadachim literalmente maluco. Seus movimentos em combate eram completamente imprevisíveis, assim como suas ações com os companheiros. Parece ser a única criatura no mundo que Daemon teme. Foi encontrado vagando sem rumo na Terra de Ninguém, sobre a carcaça de um dragão azul gigantesco.

** •Sogan:** um orc bárbaro, em todos os sentidos da palavra. Ele foi encontrado em Ashel, uma prisão de segurança máxima, amarrado como um animal. Segundo os guardas, ele não comia a mais de dois meses, mas ainda assim causou problemas ao ser libertado, causando a morte de cinco guardas na confusão. Somente Gaja pareceu capaz de acalmá-lo. Sogan é uma lenda viva entre seu povo, em Trublurk, dizem que é a encarnação da destruição.

•Haerin: Um dos novatos, meio-imortal que se juntou à milícia juntamente com o Grupo 16. Carrega uma espada amaldiçoada por um espírito da Tempestade.

•Toyen: Um ranger que odeia qualquer tipo de magia. Em combate ele é tão feroz quanto um leão acuado e suas espadas parecem estar sempre pingando veneno do mais vil escorpião que pôde encontrar.

•Cailan: O último a ser recrutado, e o mais jovem. Era um meio sombra de pouco mais que dez anos. Não usava arma nenhuma e seus olhos eram mais vazios que os piores devaneios de Roitger.

E a lista continuou até se juntar 50 guerreiros loucos o suficiente para aceitar o trabalho. A cada novo membro, Ythan parecia mais assustado e receoso do convívio com aqueles animais. O afastamento de Dárion do Esquadrão para tratar de assuntos de estratégia não ajudou nada no ajustamento do rapaz. O treinamento era duro, muito mais duro que qualquer outro treinamento que recebera antes. O conceito era bem simples, todos os Cachorros loucos eram reunidos em um campo aberto e uma competição era anunciada: o último homem em pé recebia uma refeição normal, o primeiro a cair não comeria naquele dia e o resto receberia uma sopa espartana. Gaja entrava em ação para evitar mortes desnecessárias. Ythan muitas vezes foi o primeiro a ser derrubado, mas com o tempo acabou se acostumando. Entretanto, nunca fora o vencedor, papel que era geralmente agraciado a Daemon, Roitger ou Sogan. Em pouco tempo, o jovem guerreiro ganhou uma nova camada de músculos e uma resistência a dor e a ferimentos sérios que nunca imaginou que alcançasse. Mas sua mente ainda estava insatisfeita. Por que ele fora colocado ali?

12 - Miran

O corpo de Ythan se fortalecia, enquanto sua mente ficava cada vez mais perturbada. Sua estada ali tinha sido útil para seu corpo e sua experiência com armas e os mais variados tipos de truques, a maioria deles ensinados por Gaja, mas ele estava exausto, sem qualquer vontade de continuar. Ele sentia-se abandonado ou usado, não sabia dizer, só tinha a convicção de que seu lugar não era ali. Até que ela chegou.
Era manhã, e Ythan tinha sido o primeiro a cair nas batalhas gerais dos dois dias anteriores devido a sua falta de concentração na batalha e, portanto, estava sem comer por dois dias. E, dado à temível combinação de seu corpo e mente exaustos, sua situação estava predestinada a piorar. Era a hora da batalha geral daquele dia, mas Gaja não estava no campo. Depois de vinte minutos de atraso, ele finalmente apareceu, acompanhado de um sujeito de capa negra cobrindo todo o seu corpo, mas com mangas para os braços finos, estes enfiados nos profundos bolsos do sobretudo. Seu rosto era coberto por um chapéu marrom, muito gasto, mas bom o suficiente para cobrir seu rosto fino e esconder a pele branca e sem cicatrizes. O novo recruta mostrou-se desinteressado, e foi Gaja o primeiro a falar.
- Senhores, Miran se juntará a nós. Poderemos ver seus dons na batalha geral de hoje. Podem começar.
Como cães famintos e desesperados, os membros do Esquadrão Suicida começaram seu treinamento. Ythan conseguiu esquivar-se de alguns golpes, esperando que alguém caísse antes dele, mas isso não parecia estar para acontecer tão cedo. Foi no meio da confusão da batalha, que o jovem guerreiro percebeu que o novato, Miran, não parecia preocupado com seus arredores, ele apenas observava o combate. E o mais impressionante era que os cachorros loucos também pareciam não dar importância para ele. Tomado pelo desespero da fome e uma insanidade temporária, Ythan resolveu aproveitar o momento de desatenção do novato para não ser o primeiro a cair naquele dia. Ele correu e sua espada já cruzava o ar em direção a cabeça do novato quando este percebeu o ataque. Tarde demais!, pensou Ythan, mas Miran demonstrou uma agilidade sobrenatural ao curvar-se para trás para desviar-se do ataque letal. Milésimos de segundos depois, Ythan sentiu uma pancada na têmpora direita e caiu desarmado e atordoado. Fez o que pôde para pôr-se de joelhos, mas Miran já apontava sua arma de fogo para a testa do guerreiro. Mais surpreendente que o uso da arma usada pelo Exército Zam, foi que o efeito do ataque de Ythan causou. O chapéu do novato foi ao chão com o golpe e o rosto de Miran foi revelado.
- Uma mulher!? – Ythan exclamou num meio termo entre surpresa e indignação.
Aparentemente ofendida, a pistoleira colou a arma na pele de Ythan e estacou, pensativa. Mas não teve tempo para pensar, sua oportunidade de derrotar o oponente se esvaíra quando todos os outros cachorros loucos fixaram o olhar nela. “Isso é brincadeira?”, “Posso ficar com ela se eu a derrotar?” e “Coloque esse brinquedo no chão, garotinha” foram os comentários degradantes expelidos quando finalmente voltaram a atacar, tendo agora Miran como principal alvo. Ela demonstrou verdadeiros milagres de agilidade e suas armas entupiram o ambiente com estrondos que pareciam trovões. Alvejados por tiros no joelho, tronco e mãos, um a um os homens iam caindo. Até que sobram apenas Miran, Ythan e Sogan. O bárbaro havia sido alvejado por mais de vinte balas, aparente sem efeito naquela fúria incansável. As marcas do cansaço começaram a transparecer no movimento da pistoleira e, finalmente, ela não conseguiu desviar-se completamente do machado do orc. As mangas do braço direito foram rasgadas, sua arma foi ao chão e sangue começou a pingar do braço seriamente ferido. Sogan aparentava ter sido declarado vencedor previamente, mas a mão esquerda de Miran surgiu do sobretudo pela primeira vez, nela outra arma de fogo. Numa rajada de cinco tiros, a cabeça do orc ficou estraçalhada. Ele pareceu resistir inicialmente, mas depois de dois passos, ele finalmente caiu diante de sua carrasca.
Sobrara, então, Ythan e a novata. O guerreiro estava apenas observando desde que tirara o chapéu da mulher, ignorado por uma vítima mais suculenta. Ela olhou para ele com um olhar frio e crítico. Fez menção de apontar a arma para ele, mas parou no meio do movimento e se virou. Começou a andar na direção de Gaja, que sorria e aplaudia.
- Como esperado de alguém da descendência do próprio Kelsith – disse o veterano – mas você esqueceu um. Não vai terminar com ele?
- Aquele pobre coitado precisa mais de uma refeição do que eu – disse rispidamente – e ele me venceu, de certa forma.

13

Naquela noite, Ythan foi até o quarto de Miran. Ele não sabia exatamente por que, talvez para agradecer a comida que veio em boa hora, talvez para saber por que ela o deixou vencer, talvez para perguntar o que diabos uma mulher fazia num antro de loucos ou talvez simplesmente por ser muito bela. Ela estava deitada em uma rede, com uma roupa de couro, que provavelmente vestia sob o manto negro. O coldre com as armas estava perto do apoio da rede, ao alcance de seus dedos rápidos. Ela parecia estar dormindo, olhos fechados e o braço machucado apoiado sobre a barriga. O soldado pensou em ir embora, quando ela o recebeu rispidamente, comportamento que parecia ser normal:
- O que você quer?
- Não sabia que você estava descansando, volto amanhã.
- É noite. É claro que você sabia que eu estaria descansando. Desembuche antes que eu perca mais tempo com você.
Ythan não soube o que dizer.
- E então? – ela o apressou.
- Por que você me poupou na batalha geral?
- Você estava derrotado a partir do momento que entrou em combate de mente e corpo abalados. Eu não precisava lhe ferir para provar isso. Além de que você estava precisando daquela comida, e ainda deve precisar de mais, pois está ainda muito pálido.
- E como eu posso devolver o favor?
- Não quero nada de você.
- Mas deve ter alguma coisa que você quer, vou fazer o máximo para conseguir. É só dizer. Não quero ficar em débito com você.
- Por que eu sou uma mulher?
Ythan já estava bastante impressionado com a habilidade daquela mulher de ler suas emoções e pensamentos.
- Realmente? É sim.
- Então aceite isso campeão.
- Como?
- Deixe seu orgulho estúpido de lado, aceite que você pode perder para uma mulher e cai fora daqui. Aí estaremos quites.
- Não, não estaremos.
Miran bufa e senta-se na rede. Pela primeira vez desde o campo de batalha, ela encara Ythan nos olhos. Ele parece perdido naquele azul e um tanto embaraçado.
- Ok então. Eu vou te cobrar, com uma pergunta, mas tenho certeza que você não vai conseguir me responder.
- Pergunte então.
- Na batalha geral, como você me viu?
- Como eu te vi? Que raios de pergunta é essa!? Te vi com os olhos ora…
E foi então que Ythan lembrou-se. Ninguém parecia perceber a novata no campo. Era isso uma habilidade dela?
- Você estava certa. Eu não sei.
- Inútil… Então é isso, volte a falar comigo quando souber a resposta. Até lá, deixe-me em paz.
E ela novamente deitou-se na rede e fechou os olhos. O guerreiro estava irritado.
- Olha aqui…
Mas ela o interrompeu com um gesto para que se retirasse. Ele saiu quase em marcha dos aposentos de Miran. Aquilo não terminaria assim.

14

- Quem é ela, Gaja?
O líder dos Cachorros Loucos estava em sua tenda, lendo algum tipo de livro, quando Ythan invadiu, arremessando perguntas.
- De onde ela veio? Como diabos ela tem uma daquelas armas? Ela é um inimigo? Como diabos ela desaparece da visão dos outros? Como diabos eu posso ver ela assim?
O velho guerreiro riu e interferiu com uma piada, que o jovem soldado não achou graça nenhuma.
- E “Como ela é tão bonita?”. Era isso que viria depois. Esses jovens…
- Deixe de brincadeiras, caramba, ela me dá nos nervos.
- Então ela não parece bonita pra você?
- …
- Como eu esperava. Sou cego mas consigo ver melhor do que você.
- Ela me deixou ganhar.
- E você deveria agradecer. Ontem à noite você não seria capaz de estar tão nervoso… e tão vivaz.
Era verdade. Mesmo que destruindo seu orgulho e sempre estando um passo a frente dele, o aparecimento daquela mulher realmente o fez bem. Mesmo que instigando raiva e a sensação de desrespeito, Miran lhe deu uma injeção de ânimo.
- Eu não sei o que faria se você continuasse mais um dia sequer sem comer – continuou Gaja – Mas vou saciar sua curiosidade, só dessa vez. Faça uma pergunta de cada vez, por favor.
- Quem é ela?
- O nome é Miran, uma pistoleira nascida em Vastardel, membro da Organização Obsidiana. Descendente direta de Kelsith, um herói que foi trazido do futuro pelo Rei Norhesh Slifer, há mais de duzentos anos. Kelsith era um pistoleiro com capacidades lendárias e auxiliou seu rei na batalha contra a Senhora das Sombras. Depois disso, ele começou a treinar crianças especialmente escolhidas para se tornarem pistoleiros, formando a Obsidiana. Ela é descendente da 26ª geração de exímios guerreiros que usam a arma que Kelsith trouxe do futuro. Então, já respondendo suas próximas perguntas. Não, ela não é do Exército Zam. E não, ela não é um inimigo.
- Como ela pode ficar invisível pra todo mundo, menos pra mim?
- Chama-se Imponência. Ela pode apagar sua existência dos inimigos, simplesmente não fazendo nada no combate, o que faz com que ela os pegue de surpresa, o que é geralmente letal no caso dela.
- E como eu posso ver?
- Essa é uma pergunta que não sei te responder. Você é uma das duas pessoas que eu conheci que podem vê-la.
- Quem é a outra?
- O pai dela podia.
- Podia? Ele morreu?
- Sim, quando ela era adolescente. Ele estava a ensinando a usar a Imponência, quando um grupo de assassinos de um reino inimigo os atacou. Ele morreu protegendo-a.
- Todos temos os nossos problemas.
- Acredite em mim, Ythan, não toque nesse assunto com ela.
- Quer dizer que de baixo daquela monstruosidade, ela ainda é uma menininha sensível.
Gaja segura o braço do jovem guerreiro, espantando-o e prendendo sua atenção.
- Não estou brincando, garoto.
Mas Ythan continuou arquitetando um meio de colocar aquela mulher irritante em seu devido lugar.

15 - A Planície das Grandes Batalhas

Certo dia, Dárion visitou o acampamento do Esquadrão Suicida. Sem saber o que o esperava, Ythan foi sem demora ao encontro de seu mestre e general. Gaja estava conversando com o líder da milícia de prata no campo onde sempre ocorria a Batalha Geral. A expressão na face dos dois veteranos era severa, pareciam estar conversando sobre algo sério.
- Dárion, posso falar com você?
O General olhou para o pupilo sem contentamento no olhar. Uma espécie de tristeza carregava o lugar onde eles estavam e um mal pressentimento ocorreu a Ythan. E ele arrependeu-se da pressa.
- Nós conversamos depois, garoto – e foi só o que Dárion disse antes de continuar sua conversa com Gaja.
Eles conversavam sobre uma espécie de plano secundário no caso de a Milícia e o Exército Branco fossem pegos de surpresa pelo inimigo. Conforme a reunião prosseguiu, os ânimos de Gaja e Dárion não melhoraram e quando a conversa acabou, Gaja segurou o aperto de mão do General por mais tempo do que seria considerado normal. Para Ythan parecia que eles estavam se despedindo devido a uma longa viagem. Quando Gaja saiu, disse que Ythan estava dispensado dos treinos de hoje o que surpreendeu o jovem guerreiro, mas ele precisava conversar muito com Dárion. E o mais breve possível.
- O que te aflige, Ythan? – Dárion continuava com um olhar austero e sem brilho logo depois que eles se afastaram do campo da batalha geral.
- General, por que estou aqui? Quanto mais tempo passo com essas pessoas, menos fico convencido de que tudo isso está certo. Não me pareço com elas. Não sou um Cachorro Louco.
- Então quer dizer que não aprendeu nada? Que seus músculos não cresceram exponencialmente? Que suas técnicas de batalhas não aumentaram? Que o maior inimigo ainda lhe mete medo como antes?
Cada retórica de Dárion batia na mente de Ythan como um martelo.
Ainda assim, faltou para o guerreiro uma explicação para todo aquele trabalho duro e todo o perigo envolvido em lidar com aqueles homens e mulheres que mais pareciam animais. Mesmo assim, o jovem soldado não conseguiu responder ao seu superior.
- Foi minha idéia incorporá-lo ao Esquadrão Suicida. E não acho que esteja pronto para saber o verdadeiro motivo.
- E quando vou saber, senhor?
- Quando chegar a hora, descobrirá por si mesmo.
- Mas minha mente está abalada com tudo isso. Meu rendimento em batalha tem diminuído conforme penso nos sacrifícios implicados por me tornar um Cachorro Louco.
- Talvez, então, você devesse parar de pensar um pouco.
- Isso é brincadeira, Dárion?
- De maneira alguma. Às vezes, a única estratégia que pode levar a uma vitória aparentemente impossível é confiar em seus instintos e deixar que seu corpo aja sem a interferência de uma mente, esta que pode ser facilmente afetada pelo medo, angústia e desespero. O maior guerreiro é aquele que sabe quando usar a cabeça e quando usar a espada. Pois para ambos a hora vem. Gaja me ensinou isso quando eu era apenas um recruta, mas ele não foi tão prestativo como estou sendo para você agora.
Por mais que as palavras do General não fizessem sentido para Ythan, ele simplesmente acenou positivamente com a cabeça e deixou sair por entre os dentes:
- Obrigado, senhor.
- Agora, porém, tenho algo para lhe mostrar. Haien!
Como um raio dourado, Haien veio do horizonte para as mãos de seu portador. Dárion fincou a arma no chão de pedra e um círculo se formou. O mundo começou a girar e quando o jovem soldado deu por si, ele não estava mais no acampamento do Esquadrão Suicida. Agora Ythan estava ajoelhado em terra arenosa e com tons vermelhos muito escuros. O enjôo da teleportação ainda perturbava o estômago do guerreiro, mas Dárion andou alguns metros até chegar a uma pedra retangular, apenas uma amostra dos milhares de monumentos que brotavam da planície rubra. Ao aproximar-se do General, este tomou um pouco da terra com a mão esquerda e deixou que ela escapasse por seus dedos.
- Esta é a terra abençoada com o sangue de mil batalhas – a seguir ele apontou para as estruturas, que agora Ythan identificava como entalhes de guerreiros e suas armas na pedra branca como o mármore – E estes são os guerreiros que conquistaram seu espaço nos céus. Diz a tradição desse Reino que quando um importante guerreiro morre, sua arma deve ser trazida para cá por seus mais estudiosos pupilos e seu corpo deve ser trazido pela direção diametralmente oposta por seu aprendiz mais dedicado. E quando os espíritos das estrelas, que um dia foram poderosos guerreiros, pedirem ao aprendiz um motivo para enterrar sob essa terra maculada por vitórias o corpo de seu tutor, ele deve enfrentá-los com a arma de seu mestre e vencer para conseguir que o espírito do morto aspirante incorpore-se ao Grande Exército de Askardin.
- Isso deve ser uma grande honra para qualquer guerreiro – conseguiu dizer Ythan, confuso.
- Certamente.
- Mas por que me trouxe aqui, General?
- Todos os seguidores do Senhor das Batalhas deveriam conhecer esse local sagrado. Só queria que esse fosse o primeiro dos meus dois presentes para você.
- Presentes?
- Sim, sua hora de seguir seu próprio caminho está chegando. Já lhe ensinei tudo o que eu poderia. O que falta é que você domine sua mente o suficiente para se tornar livre, não de mim, mas de suas próprias correntes.
- Eu não gostaria de me afastar de seus ensinamentos, Senhor.
- Você não terá escolha… E isso não quer dizer que estaremos tomando rumos diferentes, quer dizer apenas que não seremos mais mestre e discípulo, mas sim irmãos em armas.
Ythan não poderia encontrar palavras para descrever tamanho orgulho. Ter um homem como Dárion Galafer respeitando-o como companheiro não era pouca coisa, principalmente para um soldado como ele.
- Caso você queira saber – continuou o General – o segundo presente será entregue amanhã. Isso é, se Gaja deixar que você o conquiste. Mas agora devemos voltar, a Planície das Grande Batalhas não deve ser perturbada por mortais por muito tempo.
E com mais um movimento da lança dourada, Ythan estava de volta aos Cachorros Loucos, mas Dárion se fora.

16 - O Desafio dos Pertences

No dia seguinte ao seu encontro com Dárion, Ythan levantou cedo como sempre. Mas algo estava diferente. Suas armas não estavam onde as guardavam e não pareciam estar em qualquer lugar de sua tenda. Ele saiu assustado, supondo que existia um ladrão no acampamento. O soldado avistou, no local da Batalha Geral, que todos os Cachorros Loucos estavam reunidos em um círculo ao redor de Gaja. Quando o velho soldado avistou Ythan, ele o chamou com um aceno. Todos os cachorros estavam bastante ansiosos, alguns até raivosos. Mas nenhum deles portavam suas armas.
- Bem vindos novamente, Cachorros Loucos! – começou Gaja entusiasmado – Hoje é um dia muito importante: é o nosso primeiro Desafio dos Pertences!
- Por isso que todas as nossas armas e amuletos de sorte pessoais foram tirados de nós? – perguntou Miran, distante.
- Exatamente. Cada um de vocês tem um objeto pessoal que valorizam mais do que os outros. Eles foram tirados de vocês. Além disso, nenhuma arma é permitida inicialmente, mas várias armas de todos os tipos foram espalhadas no campo. Vocês serão levados para pontos específicos da floresta, onde encontrarão um pertence, que não será o seu próprio. Dali começará o desafio, que é muito semelhante à Batalha Geral. Mas eu não vou interferir, pelo contrário, irei participar.
A maioria dos presente ficou surpreso com a notícia de que Gaja participaria. Ninguém nunca ganhou dele em combate. Daemon, entretanto, sorriu maliciosamente com a chance de poder encontrar Gaja no combate.
- O desafio termina quando apenas um de nós sobrar vivo e seu prêmio será todos os pertences importantes dos perdedores. Devo avisar que a floresta foi encantada para limitar o território das batalhas e para manter um nível equivalente para todas as nossas estratégias. Aqui estão a localização em que vocês deverão encontrar seu primeiro “prêmio” no campo. Vistam suas armaduras, e peguem o que acham necessário. Venenos, itens mágicos, magias, tudo isso é permitido no Desafio dos Pertences. Estejam prontos daqui a meia hora em seus locais designados.
Todos os cachorros loucos, alguns excitados outros desesperados, foram para suas respectivas tendas para se preparar para o duro confronto que viria a seguir.
Ythan vestiu sua armadura, pegou algumas poções mágicas que havia conquistado em seus meses na Milícia de Prata e uma corda de seda élfica, mais resistente que cordas normais. Quando ia saindo da tenda, o jovem soldado lembrou que tinha uma luva que armazenava magicamente coisas e que talvez a adaga que lá estava não teria sido encontrada durante a revista noturna. Ele correu para seu baú e logo encontrou o item. Vestiu a luva e, com uma palavra de comando, uma adaga feita de diamante negro estava em suas mãos. Aquilo já era uma vantagem.
O solado não tinha nenhuma intenção de vencer o Desafio dos Pertences, mas seria a oportunidade perfeita de provar suas habilidades de combate e talvez até de vencer Miran, de maneira justa desta vez.
Ythan caminhou até o ponto que o pequeno mapa de Gaja indicava como sua partida. Lá encontrou uma grande caixa de madeira com um bilhete que dizia: Ythan. Ele abriu a caixa e suas esperanças de vitória diminuíram drasticamente com a arma que encontrou lá dentro. Era a foice de Daemon. Não havia engano, aquela lâmina enferrujada e suja pelo sangue dos que um dia fora dos tolos que ousaram enfrentar o demoníaco guerreiro. Ao tocar no cabo da arma, um arrepio percorreu todos os seus nervos e um sentido de auto-preservação o levou ao estado de alerta máximo. O mundo a sua volta escureceu e a foice começou a brilhar em luz rubra.
- Você teve sorte humano patético – uma voz demoníaca invadiu a cabeça de Ythan – Mas não poderá vencer Daemon de maneira alguma. Então vamos terminar logo com isso.
O soldado lançou a arma ao chão, mas nada havia mudado e a foice continuou vasculhando suas memórias, sentimentos e experiências. Então, ela continuou:
- Eu não acredito – a voz disse, gargalhando – aqueles tolos colocam tanta confiança em um ser patético como você. Mas eu não vim para esse mundo para brincadeiras. Ande, vamos acabar com isso, pegue-me em suas mãos fracas e trêmulas. Convenhamos, como diabos você se tornou um guerreiro se é tão medroso…
A arma continuava a insultar Ythan enquanto seus pés moviam contra sua vontade e, da mesma forma, suas mãos pegaram Taork. Pois agora o jovem assustado sabia o nome da arma sem que ela lhe tivesse dito. Ythan já ouvira falar de itens inteligentes e amaldiçoados, mas aquela foice era bem além do que ele sequer poderia imaginar. E isso o assustava.
O jovem soldado, agora possuído por Taork, andou a esmo pela floresta. Ele não conseguia se controlar. As palavras não saiam de sua boca. Minutos depois, ele ouviu o som de arbustos se mechendo: era Loien. Taork conhecia muito bem a maldição do elfo e sabia que o combate deveria começar e terminar em um único golpe certeiro. Ythan se escondeu atrás de uma árvore e lançou uma pedra a três metros a sua esquerda, uma tentativa da arma amaldiçoada de atrair a atenção do elfo para uma posição favorável. Mas o arco retesou e a flecha voou. Ythan foi atingido no ombro esquerdo pela flecha que atravessou a árvore em que se escondia e, mesmo na dor lancinante, não proferiu voz sequer. Taork, fez Ythan mostrar-se visível, mas permanecendo coberta pela árvore de maneira que o soldado parecesse estar escorando-se. Loien ficou visivelmente surpreso e evitou lançar uma segunda flecha.
- Então era você? – disse o elfo – Achei que fosse Daemon. Sinto muito, Ythan mas tenho que recuperar meu…
Ele não teve tempo de terminar. A estratégia de Taork havia funcionado. A aura da foice era forte e podia ser sentida por criaturas amaldiçoadas como Loien, então ela iludiu os sentidos do elfo com a visão de Ythan, apostando que o humano patético era um inimigo fraco demais para o arqueiro. Quando o elfo baixou a guarda, o corpo de Ythan moveu-se como o vento, sem dar chance de os espíritos malignos que atormentavam Loien para se manifestar. Meio instante depois, a cabeça do arqueiro caiu ao chão.
Enquanto Taork regozijava-se com o sangue em sua lâmina, Ythan tomou o controle por pouco tempo. Mas foi o suficiente para pegar um colar com um pingente de opala negra coberta por veios prateados. O soldado perguntou-se de quem seria aquele amuleto. Ele o prendeu ao pescoço, pouco antes de Taork forçá-lo a seguir adiante.
Depois de mais dois alvos fáceis. Taork deparou-se com Cailan, o pequeno menino do povo sombrio. O corpo controlado de Ythan já partia para o ataque enquanto sua mente lutava desesperadamente contra a possessão. O garoto nunca havia machucado uma mosca sequer. Ele era um tanto estranho, sim, mas Ythan nunca poderia deixar que ele fosse morto impiedosamente como a arma demoníaca queria.
- Não lute – disse Taork, impaciente – você é patético demais para ganhar o controle sobre mim. O próprio Daemon demorou anos até me dominar, e só conseguiu isso satisfazendo meus desejos. Mas você não tem nada a me oferecer. Assim que voltar para meu portador de direito, terei o enorme prazer de ceifar sua alma. Até lá preciso do seu corpo, então fique quieto.
E as esperanças de Ythan foram se esvaindo. Ele não conseguia sequer controlar o próprio corpo. Era realmente patético, como pensava Taork, Miran e até o pobre Loien que foi derrotado justamente por isso. Então, Ythan lembrou-se. Lembrou-se de que Dárion depositara sua fé nele, confiara que ele sobreviveria aos Cachorros Loucos; de que Gaja sempre se esforçara para colocar nele mais do que músculos e técnicas de combate. Gaja o fez lembrar que a luta sem propósito era só matança sem sentido. Mas que aquele que tinha pelo que e por quem lutar, era o maior guerreiro de todos e nobre como um rei. Um Rei da Batalha.
O corpo de Ythan estancou a dois metros de Cailan. Taork parecia surpresa. Os olhos do jovem soldado iluminaram-se e ele viu tudo mais claramente do que no mundo sombrio da ceifadora de almas. Ythan sabia que aquela monstruosidade em forma de arma nunca mais tomaria o controle dele mesmo. Com um grande solavanco, o soldado arremessou a foice contra uma árvore e lá ela ficou pregada.
Quando olhou para Cailan, o garoto apontava para o pescoço de Ythan. O soldado pegou o amuleto negro indagando-se se era do jovem sombrio. Ao virar-se para o garoto novamente, ele não estava mais a dois metros dele, mas sim aos seus pés, com as pequenas mãos pálidas segurando uma adaga de lâmina torta, agora fincada no lado interno da coxa de Ythan. O ferimento começou a sangrar muito, e o soldado caiu por causa da dor.
- Me…Dê – disse com voz afetada Cailan, levantando novamente a adaga estranha – É MEU!!!
Mas antes que o garoto tivesse nova chance de fincar a arma em Ythan, este a desviou com sua própria adaga de diamante negro e a tirou das mãos do garoto, que agora assumia uma expressão desesperada e maníaca. Rapidamente, Ythan agarrou o garoto e o amarrou em uma árvore com a corda élfica, tomando o cuidado de escondê-lo com galhos e cobrir sua boca.
- Um cachorro louco, realmente – suspirou Ythan.
O ferimento na perna ainda não havia estancado, e a perda de sangue poderia levar o jovem guerreiro à morte. Ele arrastou-se o mais que a dor lhe permitia até sua sacola. Pegou uma poção e a sorveu com gana. Uma nova energia preencheu-lhe e os ferimentos da coxa e do ombro desapareceram, deixando para trás apenas cicatrizes pequenas.
- Eu não acredito – disse a voz fraca de Taork enquanto Ythan vasculhava as coisas do garoto sombrio – um humano patético com a Visão de Batalha.
- O que? – perguntou o jovem, surpreso.
- Então você não sabia? – Taork gargalhou com novas forças, ela parecia ser fortalecida com o sofrimento e desespero de suas vítimas e portador – É realmente um tolo do pior tipo.
- E você é apenas uma arma – respondeu Ythan tentando não demonstrar emoção qualquer, o que pareceu funcionar – Sujeita a vontade de um tolo do pior tipo.
- Vou te matar, Ythan Gerian!
- Acho que não, pelo menos não sem Daemon. Eu estou ansioso para ver o quanto ele é poderoso sem você.
- Ele vai te matar com as próprias mãos.
- E não vai dar esse prazer a você, sua amada Taork?
- Não diga meu nome em voz alta, seu tolo – respondeu “entre dentes” a foice.
- Posso ver que vocês dois não significam nada um para o outro, principalmente se você ficar presa nessa árvore por sei lá quanto tempo. Como você sabe, essa floresta é encantada, e você pertence a mim, até que Daemon me derrote, então sabe-se lá o que o efeito da floresta vai fazer com você até chegar esse tempo, principalmente se eu a deixar aí.
- Não se atreva a me deixar aqui, mortal – disse Taork com toda a energia que tinha, e não pareceu ser muita – Eu lhe ordeno!
- Sua possessão não me afeta mais, Taork – nome que Ythan fez questão de pronunciar bem alto – Tente de novo.
- Argh, maldito Ythan! – a foice parecia desconsolada – O que você quer?
- Quero que me conte tudo que sabe sobre a Visão de Batalha. Em troca eu te levo até Daemon e você pode “ceifar minha alma”. Ou pelo menos tentar.
- Você vai pagar por essa insolência, mortal!
Ythan encontrou um broche de prata entalhado de maneira a parecer duas armas de fogo cruzadas. Aquilo era certamente de Miran. Seriam um presente de seu falecido pai. O jovem soldado achou que seu encontro com a pistoleira seria, no mínimo, divertido. Ele guardou o broche em sua algibeira e foi afastando-se do local.
- Espere – disse fracamente Taork, finalmente – Aceito o trato, mas saiba que brincar comigo foi seu pior erro.
Sorrindo, Ythan dirigiu-se até a foice amaldiçoada, tirou-a da árvore. Taork lutou bravamente para tomar o controle, mas inutilmente. Quando suas energias acabaram, ela contou.

17 - Visão de Batalha

- A primeira vez que ouvi falar da Visão de Batalha, eu ainda era um demônio de baixo escalão no inferno de Valmer. Diz a lenda que existe um humano em solo infernal, um humano capaz de derrotar qualquer demônio que entre em seu caminho. Ele é conhecido como Kazaalish, o Visitante. Muitos rumores, desde a Primeira Era, falam sobre sua habilidade de prever qualquer ato de combate que seus inimigos possam inventar. Além disso, ele é considerado inexpugnável com relação a enganações e encantamentos que visem sua queda em combate.
- Quando eu transcendi para esta forma espiritual e vim para o mundo material, eu ouvi pouquíssimos relatos de poderes semelhantes ao do Kazaalish. A não ser por uma vez que encontrei em combate o sumo sacerdote de Askardin, no tempo da Expulsão dos Deuses. O clérigo guerreiro estava bastante ocupado com os preparativos da defesa do templo do deus da Guerra para a chegada de Arcond. Como você deve ter ouvido falar, o servo sombrio parecia ser indestrutível, mesmo quando lutando contra deuses. O nome do clérigo era Teinan.
- Meu primeiro portador era um assassino nato. Ele sabia muito bem como causar a surpresa das pessoas, assim como eu sei muito bem como arrancar a cabeça de um inimigo. Seu nome era Kin, que na língua élfica significa Morte. Kin era alguém com escrúpulos, pelo menos para um assassino frio e competente. Ele nunca recusava um trabalho como Teinan, assassinar pessoas poderosas era sua maior diversão, pois as pessoas poderosas se tornam pretensiosas, sempre imaginando que podem enfrentar tudo e qualquer coisa. Kin adorava quebrar essa confiança, matando-as dos jeitos mais simples possíveis, mas com os planos mais elaborados.
- No entanto, não importava o plano que o assassino preparava para o clérigo, este sempre já estava um passo a frente e por mais de uma vez, Kin quase foi morto por Teinan. Chegou o dia em que eu ofereci minha ajuda a Kin. Ele não ficou surpreso com minha existência em sua arma, pois era muito astuto, e aceitou o trato de bom grado. Poderes dignos dos mais poderosos demônios em troca de banhos de sangue freqüentes. Ainda assim, Teinan se mostrou superior e matou Kin, mandando sua alma para o inferno. Quanto a mim, fui presa em uma sala de tesouros particular do clérigo. Por várias vezes tentei dissuadí-lo, e por várias vezes ele resistiu ao meu abraço.
- Mas quando ele me tomou em mãos, anos depois, quando Askardin já fora expulso, aproveitei-me de sua fraqueza temporária para sondar suas memórias e experiências. E eu vi o que ele viu. Ele tinha a Visão de Batalha e, por isso, sempre previa as ações de Kin. Ainda assim, Arcond pôde superá-lo em poder, pois tinha como fonte de poder a Senhora das Sombras e equipamentos mágicos específicos contra cada deus, e com poderes inimagináveis. Mas, mesmo abalado e desesperado, Teinan ainda resistiu a minhas tentações. A única coisa a mais que consegui descobrir da mente do clérigo é que ele deveria abrir os olhos da alma, em suas próprias palavras, para usar a Visão.

18 - O Desafio dos Pertences – Parte 2

Ythan começava a entender o porquê de Dárion e Gaja insistirem que ele deveria passar pelo treinamento do Esquadrão Suicida. Só naquele ambiente totalmente hostil, a Visão de Batalha poderia se manifestar. Mas o que ele ainda não entendia era como eles poderiam saber dessa habilidade. Pelo que o jovem soldado sabia, a primeira manifestação da Visão de Batalha ocorreu quando ele encontrou Miran.
Mas ele não teve muito tempo para pensar no assunto. Minutos depois de derrotar Cailan, Ythan ouviu gritos de Haerin, um dos integrantes mais normais dos Cachorros Loucos. Com cuidado, o soldado aproximou-se do local dos gritos e ficou surpreso e amedrontado com o que viu. Daemon tinha um brilho vermelho nos olhos, sua pele tinha sido tomada de escamas escarlates e suas mãos tinham garras longas e afiadas. Estas estavam presas ao redor do pescoço de Haerin. Com um puxão repentino, a cabeça do meio-imortal separou-se do corpo. Pelo visto não era só a arma que tinha uma queda por arrancar cabeças, mas seu portador também.
Ythan sabia que não poderia atacar Daemon de peito aberto, pois só tinha duas adagas e Taork, que com certeza não ajudaria para vencer seu amado portador. Mas então o jovem soldado lembrou que Taork tinha todas as experiências e memórias de Daemon e pôs-se a consultá-las. A foice tentava incansavelmente entrar em contato com seu portador, mas o encanto da floresta a impedia, agora ela pertencia a Ythan e, se fosse usar seus poderes, deveria ser com Ythan e não com outros.
O guerreiro encontrou uma memória em que outro guerreiro conseguiu irritar tanto Daemon que este perdera parte de suas percepções de combate. Essa era a opção mais vantajosa e o soldado pôs-se a planejá-la. Também existia o fato de que o guerreiro demoníaco o subestimava então ele provavelmente não iria desconfiar de nada. Ythan mostrou-se entre duas árvores. Daemon sobressaltou-se e logo deixou de mexer nas tralhas de Haerin, que permanecera morto.
- Olha só, que maravilha – rugiu Daemon enquanto seus ferimentos fechavam-se sob a pele reptiliana – Vejo que você encontrou minha arma garotinho… Ou melhor, ela encontrou você.
Ythan não tinha pensado nisso. O guerreiro demoníaco com certeza sabia que sua arma tinha o poder de dominar humanos de mente fraca. Com toda a inspiração que poderia invocar em sua surpresa, Ythan fingiu estar possuído por Taork levantando-a com uma das mãos e oferecendo-a ao inimigo. A arma tentava desesperadamente avisar sobre a tramóia, enquanto o soldado tentava fixar os olhos em um ponto distante sem tirar o demônio de vista. E aconteceu.
Antes que Daemon agisse, Ythan percebeu que ele não acreditara no blefe e que atacaria com a garra direita de baixo para cima visando o peito do humano. Com um giro de Taork, o jovem soldado desviou a garra de Daemon e deu um passo a frente, tirando-lhe espaço de atacar com a segunda garra antes que a adaga negra o acertasse no estômago. O demônio pulou para trás com força sobrenatural, pronto para atacar novamente. A chance de Ythan agora, era adiantar-se e passar por debaixo do demônio e acertá-lo pelas costas com a segunda adaga e assim sucedeu-se. Daemon virou-se repentinamente sem deixar tempo para que o soldado desviasse. Mas a Visão de Batalha era realmente espantosa, pois Ythan percebeu que se brandisse Taork no momento certo, o golpe perderia força e o alcance da foice maldita evitaria mais ataques sangrentos.
Mesmo com seus golpes se tornando menos efetivos e com duas adagas cravadas no corpo, Daemon não perdera a confiança. Ele pulou novamente para trás e apontou a palma da mão para Ythan. Chamas escarlates rodopiaram em volta dos braços demoníacos e voaram em direção do jovem guerreiro sem dar chance de evasão. O soldado foi lançado a três metros do local onde estava e suas vestes pegavam fogo. Ao seu lado, o corpo decapitado de Haerin. Preso a ele, sua espada amaldiçoada.
Ythan pegou o coldre com a mão esquerda, deixando Taork no chão. Daemon saltou no momento exato. O jovem soldado desembainhou rapidamente a espada longa e, com o impulso, lançou-a ao encontro do demônio. O espírito da tempestade foi mais rápido que o demônio, e a espada trespassou-lhe o torso. Ainda por alguns segundos Daemon foi eletrocutado, antes que perdesse todas as forças. Ythan levantou-se para pegar a espada, mas o corpo de Daemon mexeu-se. Com um relâmpago, o espírito novamente desabilitou o guerreiro demoníaco e Ythan decidiu deixar a espada onde estava.
A carne rasgada pelas garras de Daemon começavam a apodrecer mais rápido que o normal, e Ythan teve de usar sua última poção mágica antes que seu corpo falhasse. Para o jovem soldado aquela parecia ser sua última batalha no Desafio dos Pertences. Não acharia que poderia vencer seus próximos inimigos. Afinal, três horas depois do início das batalhas, somente os mais poderosos deveriam ter sobrado. Mesmo assim, o guerreiro juntou os espólios de todos os inimigos mortos ou incapacitados. Com Daemon, Ythan encontrou uma espada longa simples, quatro poções desconhecidas, um cinto de couro, duas adagas e um anel. Ele colocou o anel e o cinto de couro, guardou as quatro adagas na algibeira e começou a examinar a espada longa. A lâmina era simples, mas muito bem feita, nenhum chanfro em suas extremidades e polida eximiamente. Quando o guerreiro pegou a bainha da arma, ela brilhou e se transformou em um escudo, tão simples e bem feito quanto à espada. E Ythan percebeu imediatamente que aquele era o segundo presente de Dárion.

19

Ythan peregrinou pela floresta por quase meia hora, quando ouviu os urros de Sogan. Ele realmente pensou que aquele seria o último combate, mas agora ele tinha um problema. Dependendo de quem ganhasse o Desafio, ele não poderia ficar com sua nova arma. Mas Ythan não podia fugir, não poderia esperar que Sogan fosse derrotado por Gaja, pois tinha certeza que o mestre cego não entraria em combate até que o último cachorro louco tivesse derrotado seu último inimigo. Conforme Ythan andava, os urros insanos do orc pareciam mais perto e mais raivosos.
Mas o jovem guerreiro surpreendeu-se ao avistar o bárbaro. Este estava correndo a esmo com seu machado. Seu corpo parecia completamente destruído com cortes e perfurações profundos, ele arfava como se tivesse lutado por muito mais tempo que o normal. Atrás dele corria Toyen, com um rasgo de cima a baixo do peito, ele pulava de árvore em árvore parando somente para equilibrar-se – e a dor não parecia cooperar com isso – e para arremessar flechas contra o bárbaro. As costas de Sogan, depois de dezenas de flechas, quase não deixavam visível carne ou tecido.
E o bárbaro parou a menos de quinze metros de Ythan, ele virou-se mais rápido do que seus ferimentos deveriam permitir e lançou seu enorme, e muito sujo de sangue, machado. A arma voou e acertou Toyen na cabeça, matando-o instantaneamente. Sogan parou um instante para tomar fôlego encostado em uma árvore. Meio segundo depois ele levantou a cabeça, atento, cheirou o ar e pulou na direção do jovem guerreiro urrando. As Visões de Batalha funcionaram de novo e as grandes mãos do orc escaparam por um triz do pescoço humano. Ythan atacou com a lâmina e o escudo de maneira extremamente natural, como se ele sempre tivesse feito isso na vida, o que não era verdade. O jovem soldado atacou mais seis vezes antes que Sogan revidasse. O bárbaro parecia nem ter sentido os cortes profundos e as contusões que já inchavam e atacou de novo. Dessa vez porém, Ythan não teve escapatória a não ser pular para a esquerda.
Sogan saltou sobre ele, abrindo a guarda para mais um ataque certeiro, mas alcançando o braço do guerreiro. Com um aperto de gigante, o orc conseguiu fazer com que Ythan soltasse a arma mágica e o escudo desapareceu. O jovem soldado estava preso ao abraço de urso de Sogan e não pôde evitar gritar quando os socos mais poderosos que já sentira esfarelavam suas costelas. Ythan já previa a morte, uma escuridão turvando seus olhos e sentidos. E a escuridão veio. Na verdade, a luz esvaiu-se. O colar de Cailan parecia estar absorvendo a luminosidade do local e, quando tudo tornou-se escuridão, o aperto de Sogan relaxou-se até liberar o jovem guerreiro.
Quando a escuridão deixou a luz entrar novamente, o corpo do bárbaro estava perfurado por várias pontas feitas de escuridão. Seu olhos, sem vida. O soldado não acreditava em sua sorte. Ele sabia que os pertences dos cachorros loucos poderiam ser muito poderosos, mas aquele tipo de conveniência não era comum para Ythan.
Sogan não carregava nenhum espólio consigo a não ser seu machado. Toyen levava um arco somente, provavelmente por ter destruído qualquer resquício de magia que tivera encontrado com suas vítimas. Quase todos os poderosos do Esquadrão Suicida haviam sido encontrados derrotados. Provavelmente, sobravam apenas Miran, Roitger, Kerian e o veterano Gaja.

20

Ythan andou, sem saber para onde ir, imaginando que o feitiço da floresta o impulsionaria para seu próximo inimigo. Seus passos vagos o levaram para a clareira onde Gaja explicara as regras, mas as tendas não mais estavam lá. E o líder do Esquadrão Suicida estava lá, como se sempre estivesse estado lá. E Ythan imaginou que aquele seria seu último combate.
- Que bom que chegou, garoto – disse Gaja – Imaginei que seria você. Sabe por que está aqui?
- Sou agraciado com a Visão de Batalha e somente me tornando um Cachorro Louco poderia explorar essa habilidade tão rápido. Com mente e corpo bem treinados posso ser uma arma poderosa contra o Exército Zan.
Gaja mexeu as mãos. E Ythan viu o golpe chegando, mesmo não acreditando que o veterano poderia atacar com sua espada longa de tão longe. Com o escudo, o jovem soldado desviou a força sobrenatural que guiou o corte até uma árvore próxima, derrubando-a.
- Errado – disse Gaja – Última chance.
Ythan foi pego de surpresa. A confusão tomou conta de sua cabeça novamente. Ele tentou livrar-se dela ao pensar que um combate com Gaja seria o melhor aprendizado que teria em todo o treinamento do Esquadrão. Ele colocou-se em posição de ataque e disse:
- Vamos terminar com isso.
- Você deve descobrir o porquê de estar aqui, garoto, ou não será de serventia alguma nessa guerra. E certamente morrerá nela.
Gaja investiu em um ataque comum. Comum demais, pensou Ythan. O jovem soldado desviou-se para a esquerda, mas seu flanco direito ardeu. Sangue jorrou. Mesmo desviando-se do ataque do veterano, Ythan foi ferido. O soldado pulou para trás, esperando aparar o próximo golpe com a espada, mas Gaja atacou rápido demais e só os primeiros ataques não surtiram efeito. Todos os outros cinco atingiram Ythan na perna direita, agora incapacitada. O guerreiro ferido invocou o poder do talismã de Cailan e várias lanças de trevas atacaram Gaja, mas ele desviou-se de cada uma delas como se fossem tentativas inexperientes. Mas o ataque serviu para que o inimigo fosse afastado um pouco, evitando mais ataques.
O veterano cego circundou Ythan, como um leão esperando pelo momento certo de atacar uma gazela. O jovem estava impossibilitado de movimentar-se corretamente e, quando Gaja passou pelo seu ponto cego, sentiu que precisava virar-se imediatamente. O soldado rolou para trás, em uma cambalhota inversa e defendeu-se da estocada com o escudo; tentou atacar o velho na perna com a espada e ele teve de pular para não cair. Agora, pensou o jovem. E invocou novamente o poder do amuleto sombrio. E as sombras atacaram o guerreiro cego no ar, dessa vez não podendo defender-se. As lanças acertaram em cheio o peito de Gaja e o mantiveram suspenso. Ythan teve uma dor de cabeça, quando as visões apareceram.
Ythan viu todas as possibilidades de Gaja escapar das lanças sombrias e arrancar sua cabeça com apenas um golpe. Julgou, pelo seu convívio com Gaja e todas as poucas vezes que o vira lutar, que o veterano deveria arremeter-se contra as lanças, fazendo-as trespassá-lo (ainda sem qualquer expressão de dor), e dando espaço para um golpe preciso que perfurar-lhe-ia o pescoço.
O jovem guerreiro virou-se para a esquerda e suspendeu a magia do amuleto. Gaja, pela primeira vez em muito tempo surpreso, estatelou-se no chão ruidosamente. Ythan pressionou seu braço direito com o escudo, fazendo-o soltar a arma e fincou a espada no braço restante. O veterano era forte, mas o pupilo conseguiu manter a manobra por tempo suficiente. Ele invocou novamente os poderes sombrios, sabendo o que ia acontecer. Lanças surgiram do chão, trespassaram Gaja no peito e no pescoço, perfurando Ythan no ombro e abaixo das costelas.
- Um cachorro louco, realmente – falou Gaja com voz estranha pelo ferimento na garganta – Mas não o suficiente para me derrotar.
Pela primeira vez desde que conseguiu usar a Visão de Batalha, Ythan foi surpreendido pelo que viera a seguir. O corpo de Gaja iluminou-se em uma luz branca e o veterano explodiu.
Ythan acordou com uma tremenda dor de cabeça e ferimentos de queimadura por todo o corpo. Gaja estava diante dele, com um sorriso no rosto. Seu corpo, ainda inteiro, apenas com mais cicatrizes de onde as lanças sombrias o feriram. O jovem soldado sentiu-se desolado, acabara de perder o presente de Dárion.
- Não se preocupe – disse o guerreiro cego – Somente Dárion poderiam me derrotar em minha existência atual, e somente porque possui Haien. Se eu fosse mortal, você teria me vencido com aquele ato quase suicida. Parabéns por calcular a maneira correta de causar um ferimento mortal em mim e um não tão perigoso em si mesmo.
- Existência? Você é um deus por acaso?
- Tecnicamente, sim.
Ythan sentia-se estranho. Ele sabia que Gaja era poderoso demais, mas não imaginou que ele tivesse sangue divino. Agora tudo se encaixava na história do veterano. Ele não envelhecia, não era morto por mortal qualquer, além de ter um comportamento de batalha excepcional.
- De qualquer forma eu perdi – suspirou Ythan.
- Bom, sou eu que mando nessa merda, então eu declaro que me venceu. Afinal lutar comigo é uma injustiça.
- Estou ficando cansado dessa piedade.
- Piedade? – riu Gaja – Você não diria isso se soubesse quem terá de enfrentar a seguir.
- Ainda estamos no Desafio dos Pertences? Sobrou alguém?
- Miran.
- Ah, não…
- Como eu disse, sou muito malvado.

21

Ythan levantou-se desajeitadamente: seus ferimentos doíam demais e sua perna direita não poderia ser dobrada até um cuidado adequado e de longo prazo. Suas costelas dificultavam sua respiração. Seu ombro direito estava estraçalhado e o mesmo braço não poderia ser útil para manobrar uma arma.
- Ela está para lá – apontou Gaja, indicando o nordeste da clareira – Boa Sorte.
Gaja desapareceu em pleno ar. Ythan caminhou penosamente pela floresta. Depois de meia hora, o jovem soldado teve a sensação de perigo que indicava que a Visão de Batalha ainda funcionava, apesar de seu estado físico. Miran estava sobre um galho alto e parecia saber da presença de um inimigo. Ela esquadrinhava a floresta com seus olhos de águia, procurando-o. Mesmo que várias árvores e suas folhagens estivessem entre eles, Ythan conseguia saber, não ver, onde e como a pistoleira estava posicionada. Ele sabia que ela havia encontrado apenas uma pistola e não era a dela.
- Taork, responda-me.
- Sim, Ythan – disse a foice amaldiçoada, com resignação.
- Você pode voar?
- Posso até atacar um inimigo sozinha, se você desejar.
A cooperação da arma levantou suspeitas ao jovem guerreiro. Mas um confronto direto não era a melhor opção. Miran tinha a vantagem.
- Eu quero que você finque-se em uma árvore próxima a ela. De preferência fazendo uma volta e muito barulho, antes disso.
- Posso fazer.
Ythan arremessou a foice com toda sua força a sua direita. Ela rodou no próprio eixo e avançou em curva na direção da mulher. Mas Taork não obedecera ao comando do soldado. Ela visou diretamente o pescoço da pistoleira, que se desviou com dificuldade e pousou pesadamente no chão. Seu tornozelo parecia estar torcido. Sem exitar, Miran atirou várias vezes na direção de Ythan, ela com certeza era uma ótima guerreira. Mas as árvores o protegeram.
O jovem soldado imaginou se o amuleto de Cailan também era inteligente, mas devido à falta de tempo, decidiu que valia a pena tentar. Ythan invocou seus poderes sombrios e ouviu o esforço de Miran para desviar das lanças de trevas. Aproveitando-se da situação, o guerreiro pegou o arco de Toyen e atirou quatro flechas com dificuldade. Ao contrário dos disparos da pistoleira, as flechas seguiram por caminhos de ângulos perfeitos e duas delas acertaram-na nas costas.
Ythan usou o momento para aproximar-se procurando uma cobertura para protegê-lo das balas. Ele sentiu quando Miran, mesmo ferida e mancando escalou rapidamente a árvore que lhe dava cobertura e atirou uma saraivada de projéteis rápidos demais para serem evitados. O costume levou o guerreiro a levantar o escudo acima da cabeça. Mas as balas trespassaram a barreira e acertaram Ythan no ombro direito, trespassando-o e inutilizando aquele braço. O soldado invocou o poder do amuleto e sombras tomaram o local, evitando mais disparos. As lanças negras, porém, não precisavam que seu alvo estivesse visível. Miran foi arremessada ao chão com perfurações no estômago e na coxa esquerda. Sua arma voou a mais de três metros.
Esforçando-se para manter-se em pé, Ythan liberou a mágica do escudo e pegou uma adaga com a mão esquerda. Quando chegou à pistoleira, sua situação não parecia muito melhor que a dele.
- Termine logo com isso – disse ela.
- Não gosto de dever favores.
O soldado caminhou até a arma estranha. Com dificuldade, ele a arremessou para Miran e saltou para trás de uma árvore, mas ela não atirou, esperando que ele ficasse preparado para terminar o combate.
- Você sabia que somos os últimos? – perguntou Ythan.
- Não acredito que tenha derrotado Gaja.
- Não derrotei. Longa história.
- O que quer dizer que você deve possuir algo que é meu.
- Sim e também posso responder sua pergunta.
- Pergunta?
- Como eu posso vê-la na Imponência.
- E qual é a resposta?
- Visão de Batalha. Parece que ambos de nós temos habilidades incríveis, não acha?
- Não interessa. Quero o que é meu de volta e vou pegar a qualquer custo, com ou sem Desafio dos Pertences.
- Isso parece muito importante para você.
Miran não respondeu, o que deu a Ythan a chance de provocá-la ainda mais:
- Era do papai?
A pistoleira descarregou sua arma na árvore que protegia Ythan. Dois tiros trespassaram a madeira grossa e acertaram o guerreiro na panturrilha esquerda. Ele não poderia mais andar. E se arrependeu da provocação, que poderia custar-lhe a vitória.
O guerreiro pegou a adaga de diamante negro, sabendo que ela se aproximaria do lado direito e vendo sua única chance de vitória. Mas quando ela apareceu, ele exitou. Lágrimas corriam pelo rosto de Miran e a imagem chocou Ythan tempo o suficiente para que ela descarregasse mais uma vez a arma, dessa vez no braço dele. Ele agora não podia se mexer. Tentou invocar o poder do medalhão sombrio, mas ele não respondeu, seu poder havia acabado.
Ythan queria muito ganhar. E Taork sabia disso. A foice amaldiçoada liberou-se da árvore e voou.
Realmente, Ythan queria ganhar, mas não daquela maneira.
Antes que Miran tivesse a oportunidade de atirar, Taork a atingiu entre as costelas, perfurando-lhe o pulmão e fazendo-a cair para frente, desarmada. O jovem soldado espantou-se com a leveza do corpo da pistoleira. O Desafio parecia bastante insignificante agora. E percebeu: estava apaixonado por ela.

22 - O General

Ythan estava diante da tenda de Miran, decidindo se entraria ou não. Ele vencera o Desafio dos Pertences, apesar de não conseguir derrotar Gaja. Como achava que era certo, todos os pertences seriam devolvidos a seus donos, apesar de achar que Taork deveria ser destruída e não cair nas mãos de Daemon novamente. O jovem soldado já tinha ganhado seu prêmio, mas ainda não sabia por que havia sido colocado no Esquadrão Suicida. Gaja recusara falar a respeito. Finalmente, cansou de bancar o tolo e entrou na tenda.
Tiros. Ythan jogou-se no chão, mas só salvou-se porque a pistoleira estava muito fraca. A arma de fogo tremia muito em suas mãos.
- Devolva-me! – gritou com esforço.
- Acalme-se, vim em paz.
- Vou te matar quantas vezes for preciso se não me devolver o que é meu – sua voz ganhava vivacidade enquanto a raiva crescia.
- Vim aqui para isso.
- O quê? – Miran não sabia se ficava mais surpresa por Ythan dizer que devolveria sua única memória do pai ou por não perceber qualquer mentira nas palavras dele.
- Sim, vou te entregar, só aponte essa coisa pra lá.
Ythan ouviu o som da arma sendo colocada no chão. Ele levantou-se e caminhou na direção da incrédula e surpresa Miran. A mistura de raiva e espanto a deixava ainda mais bonita, na opinião do soldado. Ele tirou uma pequena caixa de madeira que continha o broche e entregou à mulher. Miran abriu a caixa e verificou se o broche era mesmo verdadeiro. Ela pegou novamente a pistola.
- Ei, eu te entreguei – exclamou Ythan.
- Deixe de ser tolo.
O broche separou-se em dois idênticos e ela colocou um deles na empunhadura da arma. Depois, pegou a outra pistola e repetiu o processo. Ela parecia feliz, mas não queria demonstrar isso.
- Por que você fez isso? – perguntou Miran com as armas ainda no colo. Aquela era a primeira vez, fora de combate, que ela o encarava sem desprezo nos olhos. E ele corou.
- Eu… Eu devolvi todos os pertences.
Ela encarou-o.
- O que foi? – ele conseguiu gaguejar.
Ela continuou a encará-lo.
- Você me dá medo às vezes, sabia?
Ela abrandou o olhar, encolheu os ombros e sorriu. Era a primeira vez que a via sorrindo.
- Não sei como eles colocam tanta confiança em um tolo como você – ela disse finalmente.
Ythan não ficou ofendido e disse:
- Tem que ser muito tolo para entrar para o Esquadrão Suicida.
- Não é disso que estou falando, e você sabe.
- Como assim?
- Oras, eles ainda não te disseram por que está aqui?
- Disseram a você?
- Não, mas eu sei muito bem ler as entrelinhas. Sente-se, vê-lo em pé está me deixando cansada.
Ythan puxou um banco de madeira e sentou-se perto dela. Ela não parava de olhar para ele e o azul sugava toda sua atenção. Chacoalhando a cabeça com força, ele retomou o controle. Ela disfarçou uma risadinha, provavelmente já estava acostumada a ver homens agindo como tolos diante dela. Ele conseguiu dizer:
- O que você sabe?
- São só especulações, mas sou muito boa em especular. Quando Dárion me procurou, ele disse que precisaria da minha ajuda no treinamento de um soldado especial, mas não me disse quem era. Ele disse que eu deveria me juntar a esse bando de loucos e o cara estaria entre eles, e que eu deveria agir normalmente como se quisesse estar aqui. Só fui saber que era você quando você pôde me ver na Batalha Geral. Aceitei a oferta de Dárion, não por me interessar em vir para cá, mas porque ele me lembrava muito meu pai.
Nesse momento ela parou para tomar um ar, mas logo continuou:
- Conforme os dias foram passando aqui, me convenci que você era um tolo inexperiente. Pelo menos até você ganhar o Desafio dos Pertences. Eu nunca esperava que você o ganharia. E agora começo a mudar de idéia quanto a você, sua decisão de devolver os pertences, principalmente os tão poderosos quanto a Foice e o Amuleto Negro…
Ela havia mudado de assunto, mas Ythan estava gostando do que ouvia. Mas sua alegria foi curta.
- Enfim, eu percebi que Gaja dava muita atenção a você e lhe ensinava coisas que os outros não aprendiam. Ou você não percebeu isso?
- Achei que cada um deveria receber o treinamento mais adequado.
- Estratégias de combate em massa. Técnicas de liderança. Explanações sobre história e política. Não acho que um cachorro louco aprenda isso com tanto afinco, a não ser que ele não seja destinado a ser um cachorro louco. Claro que o treinamento doentio dessa gente é excelente para os músculos, mas eles também queriam colocar alguma bagagem nessa sua cabeça. Você nunca percebeu que é somente com você e Gaja que Dárion conversa em suas raras visitas?
- Eu não tinha pensado nisso.
- Claro que não, e começo a achar que eu também tenho uma função aqui. Ser sua conselheira, quando sua hora chegar. Afinal, você é uma porta quando se trata de perceber as coisas fora de combate. Sua Visão de Combate pode ser muito útil no campo, mas fora dele você é um incompetente.
- Você tem razão – disse Ythan, o que surpreendeu Miran – E o que vai acontecer quando minha hora chegar?
- Eles estão velhos, Ythan. Precisam de alguém para substituí-los. Dárion provavelmente quer se aposentar de vez e colocar alguém de confiança no lugar dele.
O jovem soldado levantou e sentiu-se tonto ao fazer isso. E não era só um efeito dos ferimentos. Mas, agora que as coisas foram colocadas de maneira tão astuta por Miran, ele sabia que havia mais do que isso.
- Dárion não vai se aposentar – disse ele, tristemente.
- E como você sabe?
- Ele me contou a história de como encontrou Haien. A lança dourada o derrotou facilmente, mas o aceitou como portador quando ele passou por seu teste. Ele suportou o poder, ele suportou o conhecimento. Acredito que Haien lhe tenha mostrado o futuro. Um futuro no qual ele morreria e deixaria um soldado raso tomar seu lugar.
- Se ele sabia o futuro, por que não o alterou então? Isso não faz sentido.
- Acredito que Haien tenha mostrado que tal futuro é inevitável, ou o melhor deles. Dárion não é muito ambicioso, não acredito que ele queira viver mais do que Askardin lhe permita. Ele também me mostrou a Planície das Grandes Batalhas e os rituais envolvidos. Você já ouviu falar?
- Claro… Isso explica muita coisa. Sinto muito ter lhe contado.
- Por quê?
- Se você estiver certo, agora você sabe que seu mestre vai morrer. E não há nada que possa fazer para impedir. Eu não gostaria de saber que meu pai morreria naquele dia, provavelmente teria tirado a minha vida antes que…
E Miran percebeu o olhar soturno do companheiro. Ela compadeceu-se dele. Antes que percebesse, ela o abraçou, ignorando as dores dos ferimentos que o próprio Ythan causara.
- Estou confuso – disse ele, abatido – o que posso fazer agora que sei que ele vai morrer.
- Ainda existe a chance de estarmos errados.
- E se não tivermos?
- Então só tem uma coisa que você pode fazer.
- O quê?
- Honrar a memória de Dárion Galafer da melhor maneira possível.
- E como eu poderia fazer isso?
- Seja o melhor General que Faralchar já viu.

Fim
Autor: Cássio S. Santini

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