Em Busca Da Fé

Ele nunca sentira tanta falta do sol. Escondido no meio de sujeira e corpos do que pareciam ser humanos e elfos, Kelsith refletia tudo que já passara até o momento atual. Ele não era desse mundo, e se lembrava muito bem do dia em que encontrou alguém que mudaria sua vida para sempre.

“Naquele dia, o caçador de recompensas seguia as últimas pistas de seu atual alvo, um cyborg que roubara do banco da Cidade do Norte uma grande quantia de dinheiro; não era pela recompensa, no entanto, que kelsith procurava no cyborg. As pistas o levaram até uma antiga ruína de tempos imemoriais, nem nos livros mais antigos daquela terra ela era mencionada, enfim, um perfeito esconderijo para um ladrão. O caçador adentrou as ruínas sem medo, afinal, ele estava bem preparado e não parecia ter mais ninguém dentro da antiga construção. Atravessou os corredores em passo apressado mas mesmo assim silenciosos, queria pegar a presa desprevinida. Chegando em um grande hall, a surpresa: pedaços de cyborgs espalados por todo canto, mas o mais impressionante foi que um deles tivera sido brutalmente cortado ao meio e um rastro de sangue vindo da entrada do salão até a máquina destruída, nenhum cyborg que Kelsith conhecia usava armas de tal porte e nenhum humano poderia desferir golpe com tanta força.’Um competidor, talvez…’, pensou ele, ‘Interessante.’ E então continuou seu caminho até que, no meio de um corredor cheio de destroços, ele ouviu sons de tiros e de metal se chocando. Apressou-se até o final do corredor e viu dois humanos, um deles extremamente corpulento, um verdadeiro brutamontes e ele segurava em suas mãos uma arma extremamente antiga, uma espécie de machado, arma esta que chocava-se violentamente com o que deveria ser a presa do caçador de recompensas. Golpe após golpe, os sistemas internos do cyborg eram despedaçados e geravam faíscas que pulavam do corpo da máquina. Finalmente, o estranho homem com o machado arrancou com um golpe extremamente rápido e certeiro no pescoço do meio-humano. Mas Kelsith logo percebeu que os dois sujeitos não estavam acostumados a enfrentar máquinas, eles deixaram o corpo ali mesmo. Mal sabiam eles que aquele modelo de andróide tinha a capacidade de se reconstruir se não tivesse sua memória interna danificada e tivesse um pouco de energia no armazenador secundário. A máquina logo se reconstituiu e ameaçou os dois estranhos. O Caçador, então, encontrou-se no meio de um dilema de salvar ou não aqueles desconhecidos. Como um impulso, Kelsith sacou sua arma e acertou o cyborg diretamente em seu circuito principal, desabilitando todas as funções do robô. A curiosidade falou mais alto e Kelsith se apresentou aos estrangeiros que se intitularam de Victor e Norhësh e começaram a contar uma história mirabolante sobre o passado e outras coisas que o atirador não deu atenção, considerando-os malucos. Mas isso mudou quando o tal Victor começou a fazer fluir energia do nada e esta formou uma espécie de portal. ‘O que diabos!?’, pensou Kelsith. Victor começou a dizer ao brutamontes que ele deveria partir rápido pois ele não manteria o ‘portal’ por muito tempo. Foi naquele fatídico instante que Kelsith recebeu a proposta que mudou totalmente sua vida. Norhësh olhou para ele e disse: ‘Venha comigo, lá de onde venho, sou Rei e seus serviços seriam de grande valia para o meu povo e para o meu mundo’. A resposta negativa estava clara na mente do caçador, mas algo dizia que o que o brutamontes e suposto rei dissera era verdade. E que se ele aceitasse, ele poderia ser um herói nesse novo mundo. Ele aceitou e atravessou o portal e, logo na saída, ele se deparou com um homem vestido de negro e meio translúcido tentava apunhalar Norhesh pelas costas. Ouviu-se um estampido, o assassino despencou inerte no chão espalhando seu sangue sujo por todo o lugar…”

Foi assim que Kelsith chegou a Faralchar…

Mas agora…agora não adiantava ficar lembrando do passado, só importava o porque de sua missão pessoal. Mas esta parecia bem confusa e distorcida mesmo na mente que a planejara.

Um movimento, a coluna de corpos na qual o atirador se escondia fora rapidamente deslocada. Atrás dela, e o motivo do deslocamento, foi uma criatura enorme feita de pedaços de carne pútrida. O zumbi viu Kelsith. Este quase sem reação e com um medo estranho, sobrenatural, pulou para trás num instante. Para a sorte de Kelsith, o zumbi não teve reação à sua presença e continuou carregando os corpos para outro lugar. Kelsith sabia o que aconteceria com os corpos de seus aliados mortos: a pós-vida controlada por sacerdotes da Sombra era destinada aquelas pobre almas. Kelsith escondeu-se novamente, atrás de outro monte de corpos, mais distante do local dos rituais profanos.

“Diabos, malditos!”, Kelsith tinha pra si mesmo. Longe dos olhos dos vigias do dia, apesar de o dia ser tão escuro quando a noite, Kelsith roubava comida, uma espécie de líquido negro que os soldados daquela tropa estranha tomavam. “Então isso é uma guerra neste mundo…interessante, mas não foi para espionar ou para roubar o que eles chamam de comida que eu me arrisquei em vir até aqui”. Kelsith começou a avançar para o que ele pensava ser o centro de comando da tropa inimiga. Na planície profanada pelo Exército Negro, Kelsith usava seu manto élfico. O manto lhe fora dado por um mago elfo, depois que o atirador cumprira uma missão para este. O manto era feito por um tecido especial que refletia as luzes de seus arredores e fora encantado pelo sacerdote para que o usuário não fosse visto pelos olhos mortais. Mas o “alvo” de Kelsith não era nenhum mortal, pelo contrário. Sua intenção era ficar cara a cara com a Senhora das Sombras, Asnüminë. “Deuses…como serão eles?” era um pensamento que passava sempre pela mente de Kelsith desde que chegara a este mundo.

Finalmente, depois de mais um acampamento atravessado, o atirador se deparou com o acampamento principal da Sombra. Lá, tudo era mais negro, o ar era pesado como o ar de um cemitério cujos corpos não são enterrados. E não era só isso, lá havia Demônios, criaturas extremamente poderosas que possuíam a mais variada aparência, desde lindas damas com asas de morcego até seres monstruosamente deformados com chifres e outras protuberâncias córneas pelo corpo. Era estranho. Não o exército mais poderoso que Kelsith já tinha visto, mas o fato de ele não ter sido percebido. Nem sempre era fácil se esconder e muitas vezes o atirador se deparou frente a frente com um demônio ou uma criatura sombria. Mas elas pareciam não notá-lo. Era coincidência demais todos não se importarem com o humano…não era sorte. Será que eles não faziam nada porque achavam que o atirador era muito fraco? Será que tudo isso era somente parte de uma armadilha para pegá-lo? A mente de Kelsith, no entanto, tinha um objetivo a ser cumprido, então ele continuou mesmo assim.

Finalmente, ele chegou até uma espécie de altar de larga escala. Este consistia de uma pirâmide de degraus feita de pedra negra, com detalhes em outro e com algumas fontes de sangue saindo de cada degrau, formando uma pequena cachoeira. No topo da pirâmide, havia um grande trono de diamante negro, muito bem adornado. Mas o estonteamento foi muito maior quando Kelsith viu a criatura que sentava no trono. Uma menina. Uma frágil criatura com cabelos de sombra que se estendiam por mais de quatro metros em direção do céu negro, com um rosto inexpressivo muito pálido e com olhos totalmente negros. Ela fitava o horizonte, onde estavam os aliados.

“Seria essa a grande Asnüminë?” pensou Kelsith. Mesmo em dúvida da resposta, ele colocou em mãos sua arma. Esta foi modificada magicamente por um servidor do Deus da Guerra e tivera sua balas feitas de um material especial que podia derreter desde pó até a mais resistente rocha. Então o atirador usou sua experiência e mirou exatamente na testa da criatura-menina. Sem sequer pensar duas vezes, um estampido foi emitido. O tiro foi certeiro, acertou em cheio a cabeça da criatura. Inefetivo porém. Antes que Kelsith pudesse s vangloriar do bom tiro, pele da criatra se transformou em sombras e refez as partes atingidas pela bala. Imediatamente, a criatura-menina olhou para o atirador. Kelsith fora finalmente notado. Quando o olhar da criatura sombria e o do atirador, um medo tomou seu corpo todo. Um Medo que nunca havia sentido antes, algo inexplicável. Uma espécie de loucura temporária tomou a mente de Kelsith. Ele saiu correndo pelo acampamento sem se preocupar em ser visto. No entanto, novamente ninguém o percebeu, mesmo que Kelsith tocasse as criaturas malignas, essas o ignoravam, e isso intensificou sua loucura. Correndo com o vento, o atirador chegou a atravessar o acampamento principal em alguns minutos e a planície profanada em menos de uma hora. Chegando no acampamento secundário, a loucura continuava, e Kelsith ainda agia instintivamente e aleatoriamente, alternando entre as duas situações muito facilmente. Finalmente, Kelsith se chocou com uma criatura com quatro metros de altura, com pele vermelha e chifres negros. Seus olhos exalavam uma chama vermelha. Kelsith chocara-se com o poderoso Errante, mas este estava do lado de Asnüminë. A mente do atirador clareou rapidamente e e ele previu a morte certa. O Errante o havia notado. Sua garra demoníaca foi certeira na direção do humano, num velocidade sobrenatural e com força descomunal.

Mas kelsith fora então puxado para trás por um braço, um braço humano. Um ser encapuzado o houvera salvado do terrível inimigo. O Errante ficou imóvel por um instante, procurando o inimigo que agora havia sumido de seus sentidos. Kelsith olhou para seu salvador, este tinha um rosto zangado e demarcado por idade avançada, não menos que 50 anos, mas ainda forte o suficiente para salvar alguém de tão terrível golpe. “Quantas vezes mais vou ter que salvá-lo, mortal!?”, disse o estranho. “Quem…é… você?”, perguntou o atirador assustado. “Alguém que já foi esquecido e não quer ser lembrado tão cedo”, tendo dito essas estranhas palavras, o ser encapuzado desapareceu. Kelsith voltou, então para o acampamento de seus aliados para encontrar seus amigos.

Mas desta vez, Kelsith voltara de sua estranha aventura como um novo homem. Ele voltou sabendo que alguém os protegeria na guerra que se sucedia naquele campo. Ele voltou com a esperança de que ele e seus amigos poderiam vencer a guerra. Ele voltou com algo que não tinha antes. Agora, ele tinha Fé.

Autor: Cássio.

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