Mahairondelis

1 – O Mais Improvável dos Discípulos

Meu nome é Anton Mahairondelis. Sou professor de novas tecnologias aplicadas à mecânica avançada na Universidade Científica de Kadai. Meu projeto atual tem o objetivo de alterar todo o conceito atual de consciência

Sempre me chamaram de Mahai. Talvez por meu nome ser muito longo, ou talvez porque quando ganhei o “apelido”, detestei-o. Por quê diabos não me chamar só de Anton, afinal!? Calouros universitários não costumam apresentar comportamento muito melhor que um infante mimado

O Rei deve cair. Não é de hoje que tenho descontentamentos com o governo, mas minha ambição pelo crescimento científico sempre foi infinitamente superior a este tipo de mesquinharia. Mas chegamos a um ponto que não consigo mais suportar. A ideia de ter minhas criações usadas em uma guerra secreta contra um inimigo estrangeiro desconhecido por toda a população me enoja. Não serei hipócrita nem me portarei como inocente: filiei-me ao Sindicato e diversas outras organizações de menor porte para poder financiar minhas pesquisas; quando descobriu o potencial de meus estudos, claro, o Rei Daez Ferud II logo enviou seus capangas com uma oferta de financiamento irrecusável. Foi então que descobri que aquele diário não era ficção

Não sou bom em narrativas, isso é fato. Então decidi começar a escrever e não riscar mais nada, por mais que isso me desperte um desconforto patológico. A data é 6089 pós-expurgo. Eu não devia ter caçoado daquelas pobres almas que cursavam Escrita e sonhavam em serem grandes autores, isto é muito mais complicado do que parece… e ironicamente tedioso. Começarei então com o acontecimento que me soprou nova vida.
Era o verão de 6068 e eu era apenas um garoto de 9 anos admirando a engenhosidade dos barcos a vapor que me levavam às tradicionais férias da família Mahairondelis, na cidade de Lacus, um dos raros entretenimentos que podíamos pagar. Não me atentarei a contar os meus detalhes familiares, pois meus traumas parentais renderiam um bom códex de mais de mil páginas e pretendo ser o mais breve possível.
A certa altura da viagem, para examinar melhor as rodas de paletas que impulsionavam adiante a embarcação, inclinei-me sobre a borda. Meus pés escorregaram e acabei jogado na água escura do Rio dos Minérios. O desespero foi o que quase me matou. Afundei rápido e já não sabia qual caminho era “para cima”. O ar de pronto abandonou meus pulmões e deu lugar ao líquido, que naquele momento, nada me servia de sustento. A água barrosa não me deixava ver nada. E foi quando um brilho saltou ao meu olhar. Com todas minhas forças tentei nadar na direção da luz repentina, apenas para me deparar com uma caixa de madeira enegrecida e adornada por sóbrios arabescos dourados. Desprovido de qualquer esperança, agarrei-me a caixa enquanto a consciência de mim se esvaía.
Fora meu pai que me resgatara; fora pescador na juventude e sabia nadar muito bem, mesmo nas águas barrosas daquelas partes. Ele comentara que mesmo quando inconsciente e já de volta ao barco, agarrava-me com força sobrenatural à caixa negra e precisou-se dois homens adultos para dela me separar. Quando recobrei a consciência, pus-me a analisar o caixote: o mecanismo de abertura era quase imperceptível e demorei duas horas para descobrir como se abria o invólucro. Quando finalmente descobri os ganchos que prendiam a tampa deslizante, senti como se uma leve brisa escapasse da caixa. Dentro, diversos pergaminhos. Lembro-me de espantar-me com a condição dos documentos, já que não se usavam pergaminhos há mais de um milênio. O conteúdo nos papiros eram gravuras indecifráveis, metodicamente desenhadas em uma tinta negra brilhante, com ocasionais escritas em dourado – que concluí se tratarem de assinaturas.
Apenas cinco anos mais tarde consegui começar a desvendá-las. Era visitante frequente da biblioteca pública de Kadai, que era associada à universidade e continha uma infinidade de documentos. Certo dia me deparei com uma seção esquecida de estudos históricos, especificamente com um livro de autoria de um tal Jahini Kolianssu chamado “Línguas Mortas Prévias ao Expurgo”. Notei que uma das línguas que constavam naquela obra muito se pareciam com os pergaminhos de minha caixa misteriosa, um dialeto que Kolianssu chamou de Drakonai, supostamente criado pelos míticos dragões.
Ainda assim, meus pergaminhos estavam codificados e demorei quase um ano para decifrar o que estava escrito. As primeiras palavras que traduzi eram os glifos dourados que nominavam o autor: Theros Glannath.

2 – Um Texto Com Detalhes Demais

Eu nunca poderia prever, àquela época, como aquela obra de ficção inspiraria meus maiores trabalhos. Theros era um grande mago de uma terra chamada Faralchar que, com a ajuda de diversos companheiros – os que ele denominava, carinhosamente acho, incompetentes - tentava salvar o mundo da grande escuridão, representada por Asnüminë. A obra estava inacabada; as últimas entradas mencionavam apenas a preparação do mago na batalha final contra a deusa sombria, o que me deixou extremamente consternado na época pensando se aquele era o real final da história, ou se falecera o escritor antes de concluí-la. Toda a epopeia tinha, eu então acreditava, uma conotação de crítica a um dos inimigos mais antigos do homem como criatura senciente: o medo. O temor instintivo que sentimos ao adentrar pela primeira vez um ambiente escuro e desconhecido, o medo que sentimos sempre que uma mudança ameaça nossos atuais paradigmas e crenças. Tudo isso associado a uma narração pessoal de um homem fictício que surgiu praticamente do nada para se tornar um dos seres mais poderosos de seu universo.
Mas o que mais me entretinha era a maneira como Theros descrevia sua “magia” de maneira tão detalhada e complexa. Não escondo que, no resto de inocência que me restava na adolescência, tentei replicar alguns dos feitiços descritos naquele diário; sem nenhum sucesso, claro – e o motivo de eu ter que explicitar os resultados de minhas vãs tentativas no oculto se faz necessário, como explicarei adiante. O mago tratava seu ofício com uma engenhosidade titânica, o que me gerou a inferência de que ele seria a criatura mais inteligente em sua história. A certa altura de sua vida, Theros não se contentava mais em replicar feitiços, passando a alterar a energia mágica per se, criando efeitos nunca antes vistos. E isso era apenas o começo de sua jornada, eu diria, acadêmica; o diário mencionava diversas teorias sobre o oculto, como a alteração de feitiços conjurados por outrem e a vinculação de feitiços com uma consciência própria que tencionava dar vida à própria magia. Isso sem falar na visão política do grande mago, que de forma paternal acreditava que as pessoas comuns eram muito facilmente manipuladas e precisavam de proteção para que mais seres como Asnüminë, ou a tirania baseada no medo, não pudessem destruir seus corpos e capturar suas almas.
Os escritos também descreviam como funcionava aquele universo fantástico que, a certa altura, abrigou navios voadores comandados pelo capitão marítimo Hemmet Redmost. Theros chegou a descrever em detalhes o funcionamento do mecanismo de levitação, que misturava magia e estranha engenharia. Mas o que mais me chamou a atenção nestas naves era sua fonte de energia: uma orbe negra que Theros chamava de esferas de energia negativa. Uma fonte de energia praticamente inesgotável assim me pareceu impossível mesmo em meus tenros dezesseis anos. Eventualmente, o destino me provaria errado.
Eu já estava viciado naquelas histórias do grande mago em seu reino fantástico. Reli cada palavra mais de uma dezena de vezes e sempre encontrava algo que não percebera na análise anterior. Cheguei a traduzir, em diversas versões, o texto com o objetivo de constatar se havia perdido algo no complexo drakonai. Até hoje, nunca encontrei, mesmo nos livros mais técnicos, um texto com tanta riqueza em detalhes. Se o autor fora mesmo um homem chamado Theros Glannath, gostaria de poder parabeniza-lo por sua impressionante meticulosidade; e por sua imensa criatividade.
Quando ingressei na UCK, tive de deixar parte do romantismo que me pregava à história do arquimago de lado, mas nunca deixei de rememorar o maravilhamento que aquela obra me passara. Diria, até, que o método criativo de Theros para resolver problemas tenha me influenciado para seguir o caminho científico, além de minha nata predisposição para a análise e cálculo.

3 – Verum Revelatur

Depois de formado cientista pela UCK continuei no meio acadêmico, sempre buscando expandir as possibilidades teóricas e práticas da mecânica. O carvão, que alimentava as fornalhas de barcos e trens era um recurso que rapidamente, numa visão histórica, se esgotaria e eu gostaria de ser o responsável pela alteração deste paradigma. Testei diversas formas de combustíveis, minerais e orgânicos, especialmente os óleos feitos com a banha de animais, que apesar da ineficiência se comparados ao carvão seria um substituto viável. Durante a faculdade, em visitas às fábricas logo percebi a exploração da classe trabalhadora, que trabalhava horários largos e árduos para manter a produção de peças desnecessárias para o consumo da elite. Por um tempo, participei de grupos sociológicos para buscar uma alternativa ao método vigente, mas logo percebi que todos os participantes nada mais eram do que riquinhos que nunca sujaram as mãos na vida e as reuniões não passavam exercício filosófico. E então soube do Sindicato, eles sim travavam reais batalhas contra os industrialistas, incitavam greves, boicotavam máquinas e desviavam suprimentos.
A princípio, minhas intenções eram genuínas: meus pais eram pequenos comerciantes e eu via como eram tratados pela elite aristocrata Zenin. Mas logo meus inventos chamaram a atenção dos líderes do Sindicato, que me pagavam para projetar itens, analisar a segurança de esconderijos, planejar boicotes técnicos a máquinas avançadas, etc. Logo minha ambição já falava mais alto que o intuito de mudar a situação dos menos afortunados. O dinheiro me permitiu ampliar minhas pesquisas, já que a UCK pouco financiava as iniciativas dos alunos e professores comuns, como era meu status à época. Formei-me com honras, todas ignoradas já que eu não possui padrinhos influentes que me colocassem em local de prestígio na sociedade acadêmica de Kadai. Todos os meus estudos eram financiados por mim mesmo, com meu modesto salário, ou pelo Sindicato. Mesmo que eu tenha sido um de seus maiores colaboradores, dado o risco da associação ante os olhos da lei, fiz questão de manter minha distância da organização e de qualquer poder interno que me oferecessem. Ainda assim, fui descoberto.
Fui notificado pela UCK que meu pedido formal de demissão era esperado no início da primavera de 6103, ou minhas fontes de recursos seriam expostas aos agentes policiais e meu nome desgraçado na sociedade acadêmica de todo o mundo. Lembro-me de ter sido tomado pela raiva enquanto lia a missiva oficial da universidade. Felizmente, eu havia feito alguns trabalhos para alguns industriais e uma grande pesquisa para a fabricante de barcos Marinya, que incluía um aperfeiçoamento da resistência do casco e (meu assunto predileto) o estudo de viabilidade da utilização de óleo produzido com descartes de peixes. Eu esperava que conseguiria disfarçar o alocamento de recursos a mim direcionados com mais algumas empresas falsas e cobrando favores de alguns industriários que nunca me pagaram. Era uma esperança vã. Mesmo que me safasse das acusações legais, minha reputação como cientista estaria condenada para sempre.
Certo dia, no final do inverno anterior ao meu prazo de demissão, fui abordado por um homem que se dizia a mando do Rei em pessoa. Ele me ofereceu uma alternativa: agir como espião no Sindicato (na verdade, apenas seguindo com minhas pesquisas para eles) e trabalhar em segredo para o Exército Zan. Sinceramente, achei que aquele homem, Lavian, estava brincando com minha cara, mas logo surgiram seus capangas como demonstração do que me ocorreria se eu recusasse. E eu que sempre achara que o Exército Zan era um embuste criado para manter os industriais e comerciantes na linha. Aceitei o acordo e no dia seguinte recebi segunda carta da UCK pedindo mil desculpas pelo mal entendido e, como compensação, informando que eu fora promovido para o cargo de professor emérito – que ampliava meu tempo livre e meu salário (para, claro, servir o Reino).
Os projeto que Lavian me encaminhava eram todos de extrema complexidade e isso me fez logo me apaixonar pelo acordo, pois estava ali realmente expandindo o que era conhecido pela ciência, ultrapassando as barreiras teorizadas pelos meus enfadonhos colegas de profissão. Em primeiro lugar, me mandaram descartar meu projeto com energia a partir de óleo animal e me entregaram uma pequena esfera negra, indicando que eu deveria descobrir tudo que poderia daquele objeto. A princípio, não percebi com o que estava lidando. Lavian não me contava nada, incluindo a origem do material. Descobri, da pior maneira, que o material tinha tanta energia armazenada que chegava a ser explosivo. Mas era algo muito mais potente que a própria pólvora.
Quando a pequena esfera negra caiu no chão e quase destruiu o ambiente de testes, que por sorte não era ocupado por este que vos escreve, me lembrei imediatamente de Theros e sua energia negativa.

4 – Barreiras Expandidas

Foi relendo minha história favorita que tive a ideia de comprimir as esferas de metal – Lavian teve de me dar um suprimento bem maior – para gerar calor. Para a minha surpresa, entretanto, não foi calor que surgiu, mas sim uma descarga atmosférica, energia elétrica. Muitos teóricos fizeram diversos trabalhos indicando a extração atmosférica da energia dos céus, mas nunca conseguiram conseguir um nível mínimo de controle sobre os raios. Meu estudo mudaria isto.
Deixarei os detalhes técnicos para um livro a ser lançado quando o assunto não for mais secreto. Para resumir a história, desenvolvemos artefatos que podiam usar a energia elétrica para movimentar-se, usando as esferas de energia negativa como células combustíveis. Elas eram infinitamente mais duráveis que o carvão: um de meus experimentos consistia a movimentação de uma roldana; fazem aproximadamente dez anos e a roldana continua girando; e usamos apenas uma das menores pedras!
Lavian eventualmente me contou que também era um cientista e era especializado em armamento militar. Eu deveria ter notado naquele momento, mas estava cego de excitação.
Nossos trabalhos mais recentes são relativos ao desenvolvimento de uma armadura móvel. Com tanta energia, muito pôde ser feito do projeto, incluindo nossa mais recente façanha: o módulo de voo.
Talvez por inocência ou talvez por não querer ver, não imaginei que os exoesqueletos, como os chamei, seriam utilizados para a batalha e muito menos tão cedo. Quando, em uma discussão sobre o módulo voador, Lavian me pressionara para a conclusão do projeto, questionei o porquê de tanta pressa. “A Guerra ao Sul já começara”. “Que guerra?” eu indaguei, mas talvez a pergunta mais relevante seria Que Sul?, afinal não tinha notícia sequer de guerra em Toreheim e os exoesqueletos chamariam muito a atenção dos jornais. Lavian percebeu meu espanto e disse simplesmente: “O Rei está travando uma guerra ao sul, além do deserto, para expansão territorial”.
Naquela noite juntei os pauzinhos: o deserto não era só o que tinha ao sul, como todos imaginaram até então (pelo fato de nenhum explorador ter voltado em mais de seis mil anos). Existia pelo menos mais um reino por aquelas bandas. E então a consciência me lembrou do que eu fizera: por conta de meus estudos, um número inimaginável de pessoas poderiam estar agora mortas e sabe-se lá quantas mais morreriam. A culpa me consumiu e nenhum sono me trouxe alívio. Mas eu estava preso ao acordo, então decidi tentar mudar o rumo das coisas.
Desde então, diminuí o passo dos experimentos, criando contratempos e fazendo-os parecer acidentais. Também passei a estudar por conta outras possibilidades. Uma delas era a criação de mecanismos facilitadores da interface de controle dos exoesqueletos: era uma aposta perigosa, pois meu sucesso indicaria que os pilotos exigiram muito menos experiência e técnica para controlar as máquinas, mas também permitiria o funcionamento do meu plano secreto.
Inspirado na lenda de Theros Glannath, e levando em consideração todos os avanços que tínhamos alcançado, chegara a hora de trabalhar em algo maior. O primeiro passo foi criar um replicador, um sistema de alavancas extremamente pequenas que repetia o mesmo movimento e isso foi fácil. Com vários replicadores, parti à construção de alimentadores: que são uma espécie de sensores para estímulos dos mais variados, incluindo som, eletricidade, movimento, luz. Combinando da maneira correta os replicadores e os alimentadores, construí uma máquina de cálculo simples e ela fazia operações com até quatro dígitos.
A agilidade do trabalho surpreendeu até a mim mesmo. Juro que, por um instante, imaginei que aquelas baboseiras de destino fossem verdade. O mais provável era, entretanto, que foi só o resultado do trabalho de quase um ano sem dormir.
Aprimorando cada vez mais os mecanismos, consegui construir uma máquina de perguntas e respostas. Não é um divinador, como com certeza me perguntariam diversas pessoas, era um cubo de cinco metros quadrados que alimentado com uma certa combinação de dados, poderia retornar respostas previamente programadas. Creio que com um número suficiente de mecanismos como este eu poderia criar uma máquina auto suficiente. Infelizmente, até o momento, tive apenas fracassos.

5 – Documentos Confiscados

POR ORDEM DE SUA MAGESTADE O REI DAEZ FERUD II, ESTES DOCUMENTOS SÃO CONSIDERADOS SEGREDOS DE ESTADO. O SENHOR ANTON MAHAIRONDELIS DEVERÁ SEGUIR SUAS PESQUISAS EM NOME DO EXÉRCITO ZAN SOB TUTELA EM TEMPO INTEGRAL E TAMBÉM SERÁ IMEDIATAMENTE INTERROGADO SOBRE TODO O SEU CONHECIMENTO SOBRE O SINDICATO.

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