Kerwal

1

- Você acha que eles cairão nessa, mestre? – perguntou o discípulo negro vestido em seu manto usual.
- Cair? Não é uma armadilha. Preciso deles e eles precisam de mim.
Kerwal não cobria sua cabeça em seu salão. Ele não gostava de cobrir sua face de maneira alguma. Os aventureiros, conforme o Mestre do Culto Imortal pensava, deveriam aceitar sua proposta, ou tudo estaria perdido.
- Mas mestre, eles não vão confiar no senhor. Já aconteceu uma vez e te levaram a Dárion.
- Não é uma missão de confiança. Confiar em mim? Não deveriam mesmo, assim como não confio neles. Mas desta vez vou deixar as coisas um pouco mais claras para suas mentes inferiores. Eles precisam se tornar os heróis da profecia. Caso contrário, tudo isso foi em vão e tudo o que fiz só acelerou a degradação de Faralchar. Vou contar tudo o que eles podem saber no momento e deixarei bem claro o que eu quero que façam por mim.
- Conheço Thorian e, se seus companheiros forem ao menos parecidos com ele, não aceitarão de maneira alguma.
- Sem minha ajuda eles nunca derrotarão os Imortais no tempo certo e a guerra contra o exército Zan não será ganha. Você acha que eles arriscarão perder a guerra por uma coisa tão insignificante?
- Como o mestre mesmo disse, eles têm mentes inferiores.
- Então eu trarei você e Zach comigo.
- Mas senhor…
Kerwal olhou para seu discípulo com um sorriso sem sentido. A mente do inferior era bastante clara para ele. Não compartilhavam do mesmo ideal. O jovem ainda tinha muito medo dentro de si. Revelar sua identidade com certeza não fazia parte do plano, mas ele era uma parte importante do jogo. Não tanto como os jovens heróis, mas de valor inestimável; precisava dele para a queda de Áster. Tê-lo junto no momento da confrontação era uma ideia genial.
As portas do grande salão abriram-se de repente. Ardol, no corpo de Lletor Ágeven, parecia com cara de poucos amigos. Fitou o jovem aprendiz e foi o suficiente para que eles ficassem a sós em meio segundo.
- O que estamos esperando, Kerwal? – o diabo cuspia as palavras, em seus lábios elas pareciam distorcidas de se ouvir - Se tomarmos o Reino Branco, nada mais poderá nos impedir. Começo a desconfiar que esse atraso tem um motivo seu…
- Cale-se possuidor de crianças – esbravejou Kerwal – Desde quando você tem o direito de me chamar pelo nome?
Ardol ajoelhou-se imediatamente, seu rosto transfigurado pela raiva e impotência.
- Sinto muito, mestre, eu errei – suas palavras transbordavam veneno – mas mesmo assim…
- Você, desconfiado? E desde quando não está desconfiado, Ardol? – ser chamado pelo nome fez o diabo abaixar a cabeça ainda mais, mais para tentar esconder a raiva perante o desrespeito do que simbolizando respeito – Não há com o que se preocupar. Estamos reunidos novamente e as únicas criaturas capazes de nos impedir ou estão presas ou com medo do que sua interferência causaria.
Era mentira, claro, Kerwal havia mentido para os integrantes do Culto Imortal desde sua criação. Poucos tinham sequer ideia do que ele planejava e destes, menos ainda ousariam confrontá-lo. Ele era o mais poderoso de todos, sem dúvida. Sabia os segredos de todos. Ardol era uma pedra no sapato, com certeza, mas teria que aguentá-lo por pouco tempo; assim esperava. Mas, por enquanto, precisaria continuar enganando-o, levando-o para respostas inúteis, até que enfim Lletor pudesse aniquilá-lo. Até lá, ele ainda precisava ser mantido por perto. Mas o Mestre Supremo não resistiu a tentação de humilhar a criatura que, para ele, era repugnante.
- Por que essa cara, Mestre Ardol? – disse, com um sorriso malicioso – O jovem mortal dentro de você ainda lhe mete medo?
O diabo levantou-se desafiadoramente, mas permaneceu calado.
- Como eu disse antes, não há o que temer. Venceremos essa guerra. O líder deles está em seus últimos dias. Você sabe.
- Mestre, não devemos subestimar aqueles mortais tolos. Eles podem não ser nada agora, mas em alguns anos poderão…
- Não terão este tempo, isso lhe asseguro – interrompeu Kerwal – e mesmo que eles livrem-se de suas correntes, não terão poder suficiente para nos desafiar.
- A não ser com a ajuda de alguém.
- Como quem?
- O Rei pode…
- Omein perecerá na Batalha de Mald, assim como cairá Dárion Gálafer.
- A Cruz de Prata já…
- Mestre Áster já tomou conta de seu mais poderoso guerreiro e seu aprendiz já mostrou que eles podem ser manipulados.
- Diria mais que foi um golpe de sorte. Mesmo assim, Elmerhein…
- O Rei Elmerhein sobreviveu à Queda por sua covardia. O máximo que irá oferecer é abrigo e, como o Mestre Áster também demonstrou, seu castelo é completamente vulnerável e aposto que o Grande elfo fugirá assim que sequer insinuemos um ataque a seu castelo.
- Ainda há a possibilidade de um agente duplo. Alguém infiltrado aqui pode estar passando informações para eles. O ataque Tamhe-Zel não foi coincidência, eles não tinham como saber que a cidade estaria desprotegida…
- E mesmo assim foram rechaçados. Chega de voltas, vá direto ao ponto. De quem desconfia?
- Foram rechaçados, mas libertaram quase uma centena de prisioneiros que nem deveriam estar vivos. Taiga está espalhando rumores desconfortantes sobre um novo Imortal, um como ele. Imagino que um de nós, dos Grandes Imortais, está envolvido.
Grandes Imortais. As palavras de Ardol eram um sacrilégio para Kerwal. Nem mesmo ele se considerava um Grande Imortal. Os verdadeiros Grandes Imortais desapareceram na Primeira Era e, desde então, nunca se ouviu falar deles; pelo menos não ouvidos comuns. Tentando ao máximo mascarar o desprezo, o Mestre Supremo usou todo seu poder de atuação para fazer a voz mais séria que poderia inventar.
- E de quem estamos falando, Mestre Ardol?
- O vampiro nunca está por perto quando precisamos dele. Com suas tropas, poderíamos causar medo até no mais corajoso dos paladinos e, mesmo assim, ele nem sequer comparece aos conselhos de guerra.
- Aelon? Você tem algo concreto para que possamos nos livrar dele?
- Ainda não, Mestre Supremo.
- Então esta será sua prioridade assim que Mald estiver no chão. Assim eu ordeno.
- Claro Mestre Supremo.
Quando Ardol saiu do grande salão, as luzes (costumeiramente baixas) acenderam-se. Kerwal sorria de contentamento. O diabo era perspicaz, ele chegara muito próximo da verdade. Aquilo era um problema. Se descobrisse que Kerwal era o traidor não haveria pistas do que poderia acontecer. Provavelmente o diabo voltaria para o Abismo, onde quase ninguém poderia encontra-lo. Mas a possibilidade não baixou o humor do Mestre Supremo. Ardol não poderia correr dele. E Aelon era muito mais antigo e sagaz, provavelmente mais poderoso até, não teria a vida particular que tanto prezava aberta facilmente. E o diabo não investigaria pessoalmente, já que teria problemas mais pessoais para resolver.

2 – O Soro da Vida

Enquanto caminhava no longo jardim onde a primavera era eterna, Kerwal relembrava o fato de o quanto Tullï tinha bom gosto para decoração. Mas, para ele, nada deveria ser eterno. Que graça haveria em flores que nunca experimentassem a destruição invernal, para renascer na primavera próxima muito mais belas e desejadas do que antes. O que via era algo fútil aos seus olhos.
- Pare! – exigiu o anjo de espada em mãos, determinado a eliminar as ameaças a sua deusa – Identifique-se!
- Sou Kerwal e ela deveria estar me esperando. Embainhe sua espada e saia do meu caminho – apesar da dureza do significado, as palavras eram macias como seda.
O anjo levantou a arma e estacou. Seu peito tinha adquirido uma coloração cinzenta que se espalhava rapidamente para o resto do corpo. Menos de cinco segundos depois, a estátua que era anjo agora desfazia-se em cinzas. Kerwal continuou seu caminho a passos largos, mas pôde perceber quando o milagre de ressureição ocorria detrás dele. O anjo, recomposto dos restos, fez menção de investir contra o invasor.
- Podemos fazer isso o quanto você quiser, Himel – o anjo pareceu assustar-se com seu nome saindo da boca daquele estranho e estacou a meio caminho dele – Mas você sempre perderá.
O palácio feito de muito mármore e muito cristal era extravagante, principalmente para uma deusa tão humilde como ela. Claro que aquilo não fora sua ideia, os anjos por algum motivo haviam escolhido a Deusa da Vida como protegida e construíam monumentos dignos de reis astrais em seu nome. Kerwal odiava os anjos. Eram intrusos, não deveriam estar ali. Assim como os demônios e diabos, criaturas repugnantes que fugindo de algum plano decadente acabaram em Faralchar.
Ao pé do trono branco, Kerwal fez uma leve reverência em sinal de respeito. Não por estar diante de uma criatura com poderes supremos, mas sim como um rei faria para um rei vizinho em tempos de paz. A jovem sentada desconfortavelmente no trono apenas respondeu com um aceno de cabeça. Sua face mais bela que todos os seres que eram, são ou serão.
- Kerwal… – Ela sussurrou.
- Titia, quanto tempo! – disse ele num tom jovial.
- Por que tratou Himel com tanta falta de educação, jovem?
Jovem. Era uma das poucas criaturas que o poderia chamar assim, apesar de a aparência que ele escolhera era mais velha do que a dela.
- Sabe do que acho da espécie dele.
- Mesmo assim não deveria rebaixar-se a destruí-lo.
- Nem você a trazê-lo de volta.
A face da deusa transformou-se em tristeza.
- O que você quer, jovem Kerwal?
O salão encheu-se imediatamente por anjos prontos para a batalha. Mas Tullï os dispensou com um aceno. Indecisos e confusos eles recolheram suas armas.
- Gostaria de uma conversa mais… particular.
Tão rapidamente quanto surgiram, os anjos desapareceram assim que a deusa os dispensou.
- Muito bem – continuou Kerwal – Você sabe o que quero, senhora. O soro que só você pode criar.
Ainda com tristeza, Tullï tirou de seu manto de seda um frasco com um líquido brilhante como o sol. Ela o colocou sobre uma pequena mesa a frente de si. Antes que Kerwal tivesse a chance de pegá-lo ela começou a falar novamente.
- Você sabe o que está fazendo filho? Que bem isto que planeja pode trazer?
- É o que devo fazer – disse ele com um sorriso no rosto – Não tenho o seu altruísmo e garanto que muitos dos seus irmãos também não o têm. O esquecimento não combina comigo e tenho muito o que fazer até que ele venha.
- Mas quantas vidas mortais isso custará?
- Mudanças exigem sacrifícios, como meu amado tio Ynd diria.
- Eu imploro para que pare, Kerwal – o rosto da deusa era de real súplica e ele não estava devidamente preparado para isso.
Ele tomou o frasco e o guardou em um saco negro que cobriu todo seu brilho.
- A nova Era chegará, Tullï. E você terá um lugar garantido nela. Vou me lembrar disso.
A face de tristeza continuou, mas a deusa se conformou que nada poderia fazer para impedí-lo. E ela nada disse enquanto ele saia de seu salão. De volta ao jardim, Himel novamente estava em seu caminho. Não preparado para a batalha, como antes, mas com a mesma expressão de raiva.
- Você vai pagar por isso! Você tem sorte de nosso amado líder não estar aqui agora, ele o destruiria com certeza.
- Eu faço minha sorte, criatura tola. E seu líder não se atreveria a tocar em um fio do meu cabelo, não com as consequências que isso implicaria. Sem contar que sua protegida o impediria, assim como impediu que seus irmãos me enfrentassem.
Sem contar que o líder angelical tinha um ponto fraco, assim como todas as criaturas mortais e imortais. Ele não sobreviveria a Kerwal.

3 – Mald

Dali, de cima da colina de areia, Kerwal observava a confusão que eram as tropas de Turshec. O deserto de Sin-Ol tinha sido facilmente conquistado. Os nômades que nele viviam fugiram ao primeiro sinal das máquinas de guerra do Exército Zan. E que máquinas: eram golems de metal gigantes, controlados por o que eles chamavam “pilotos”. Era incrível criaturas que não acreditavam na magia a ponto de serem capazes de suprimi-la acreditarem que aquelas máquinas não eram mágicas. Mas o ponto é que a cidade estava completamente suscetível a ataques. O Exército Branco não tivera tempo de mover todas as suas tropas, nem a cidade havia sido esvaziada. Com um simples pensamento, Kerwal iniciou uma tempestade de areia. A cidade foi coberta por uma névoa bege que impedia qualquer um de enxergar a mais de um palmo a frente. Mas os mortos-vivos não tinham esse problema.
Conforme a cidade ia sendo destruída, os defensores do lado de lá começaram a tomar seus lugares. Irados pela perda de tantos inocentes, conseguiram manter a metade sul da cidade por algumas horas. Até que Kerwal ordenou a retirada para as tendas que já estavam sendo montadas em meios aos destroços ao norte. Claro que, se fosse necessário, Kerwal e os mortos-vivos poderiam dominar a cidade em mais uma ou duas horas, mas esse não era o plano. Precisavam atrair o Rei Omein e Dárion Gálafer para que Mald pudesse ser seus túmulos. Novamente acima da colina arenosa, Kewar calculava as possibilidades e os imprevistos que com certeza apareceriam. Ele estava ansioso com o encontro que aconteceria dali a alguns dias. Era vital para seu plano que os aventureiros aceitassem sua ajuda. Sem eles, as coisas seriam muito mais complicadas e o Exército Zan com certeza ganharia aquela guerra.
- Mestre Supremo – Era Zach, um homem grande demais para seu pequeno intelecto.
- Algum problema? – respondeu friamente Kerwal. Não gostava de interromper seus pensamentos por algo inútil.
- Talvez senhor. Herian disse que o acompanharemos na Reunião. Não será muito intimidante?
- O Mestre Supremo do Culto Imortal, que eles conhecem como Culto Negro, vem a presença deles e você acha que dois acompanhantes vão ser intimidantes?
- Mas senhor, você os deixou pensar que eles o destruíram.
- Não os subestime tanto assim. Eles não têm a mínima ideia de quem eu sou, mas não seriam tolos o suficiente para acharem que poderiam me derrotar somente numa companhia de quatro homens.
Zach pareceu aceitar as palavras, não concordava com elas estava claro, mas não iria tocar no assunto novamente. Ao contrário de Herian, que não perdia uma oportunidade sequer para bombardeá-lo com perguntas. Mas o brutamontes continuou:
- Tem outro problema, senhor. Dárion e o Rei chegaram, mas trouxeram o Esquadrão Suicida com eles.
- O Esquadrão Suicida? Isso não estava planejado. Aquele maldito do Gaja pode estar querendo interferir nos nossos planos.
- O que vamos fazer, chefe?
- Vamos ver o que vai acontecer. Se eles ganharem, ótimo. Só precisamos assegurar que Dárion e Omein tenham um encontro com os melhores atiradores do Exército Zan. Eles precisam ser tirados desse jogo. Contate os dois homens responsáveis, diga que eles devem estar no local combinado ao tocar das trombetas, encarregue-se pessoalmente de que eles cheguem ao local com segurança.
- Sim senhor.
Zach virou-se e fez menção de descer a colina, mas virou-se com uma expressão confusa. Qualquer coisa que não fosse raiva ou indiferença eram estranhas de se ver no rosto do serviçal negro. Um resplandecer de medo passou por sua face rapidamente antes de fazer sua pergunta.
- Mestre Supremo, posso cometer uma insubordinação?
- Se estiver disposto a perder a vida por isso, claro – Zach já ia se retirar – Acabe com isso logo e faça a pergunta, Zach.
- Qual era a profecia mesmo? Digo, sabemos que ela era importante, mas não me lembro das palavras exatas.
Então Kerwal a recitou. O ar parecia pesado a sua volta enquanto as palavras impronunciáveis saiam de sua boca. Zach parecia com medo. Mas claro, não entendia coisa alguma daquelas palavras. Quando terminou, o brutamontes parecia uma criança confusa.
- Então aí diz que aqueles paspalhos são os heróis que decidirão o futuro do mundo.
- Indiretamente sim, mas não é apenas isso. Aqueles homens são importantes para um propósito maior que estará nas mãos de alguém. Antes que algum espertinho tente tomar esse papel, prefiro que ele seja meu.
- Então o Mestre os está manipulando, certo?
- Isso te faz sentir melhor?
- Com certeza mestre. Não gostaria que meu destino estivesse nas mãos deles.
- Então sim, Zach. Não precisa se preocupar. Faça como eu digo e ficaremos bem.
- Obrigado, Mestre Supremo.
Talvez precisasse se livrar de Zach no futuro. Se algum dia as coisas se apertassem, o brutamontes teria dificuldades de manter as informações privilegiadas para si. Gaja e Kerwal já tinham tido seus momentos de discordância. Se o velho guerreiro guardasse alguma mágoa por seus olhos, um grande problema existiria. E era mais do que isso. Corria o boato que Gaja estava treinando o sucessor de Galafer. Um jovem e promissor guerreiro e, ao que parecia, um excelente estrategista. Kerwal precisava ter uma conversa com o garoto, Ythan seu nome, se o trouxesse para seu lado assim como os heróis, tudo seria muito mais fácil.

4 – O Estrangeiro

Quando Kerwal saiu de sua tenda naquela manhã, tinha planos de inspecionar o campo de batalha. Felizmente ou infelizmente, ele não sabia qual a melhor expressão, não chegou nem perto do casebre destruído que delimitava o início de Mald, ou o que sobrara dela. A batalha seria naquela tarde e não podia negar que estava ansioso, agora as coisas correriam muito mais rápido. Mas não estava nas areias do deserto de Sin-Ol quando deu por si. Estava em uma praia que se estendia para sempre. Um ligeiro desconforto passou por sua mente, nem mesmo um deus maior poderia transportá-lo contra sua vontade.
Às suas costas, havia uma espécie de castelo em ruinas. Mas assim que se aproximou, viu que não era bem assim. O castelo havia sido construído de modo que seu grande salão fosse aberto para a praia a sua frente. Kerwal não sabia como a construção se mantinha em pé, sem a sustentação de pilares, mas essa era a menor de suas preocupações. O lugar era esplendidamente limpo, mesmo com a praia lhe adentrando o chão de pedra cinzenta. Archotes pendiam do teto com uma luz forte de gordura de dragão, iluminando uma enorme mesa de jantar ricamente suprida de carne de porco assada no mel e alecrim e um vinho de aparência muito boa. O cheiro era impressionante, mesmo Kerwal que havia perdido o interesse pelas tentações mortais sentiu saudade do tempo em que um bom banquete lhe alegrava a mente.
No final da grande mesa, sentado em um trono de pedra, mais simples do que o Mestre Supremo do Culto Imortal esperava, estava seu estranho anfitrião. Seu rosto era indecifrável, não pela inexistência de feições, mas porque sempre que Kerwal desviava seu olhar, ele não mais recordava de sua face. Ele vestia um manto branco com detalhes em vermelho sangue e um cordão adornado com prata. A sua frente havia um generoso prato com carne de porco e carneiro, juntamente com uma taça de vinho e um cachimbo longo fumegante.
- Aproxime-se, Kerwal – sua voz era tão fácil de se esquecer como sua face – sente-se e coma, se quiser.
- Quem é você? – sua voz o traiu no momento que saiu de seus lábios, mostrando confusão e medo.
- Não fique envergonhado, eu lhe tirei sua personalidade habitual e ela lhe será devolvida assim que me escutar. Sou seu criador.
- Dharilon?
- Também o criei. Sou o deus acima dos deuses e a impureza do inseto. Sou o tudo e o nada. O completo incompleto. E, por que não, sou você e todos os que existem em Faralchar.
Não queria acreditar, mas Kerwal soube imediatamente que era verdade.
- Parabéns? – a audácia e insolência do Mestre Supremo haviam voltado. Aquele homem era louco. Um louco imensamente poderoso, mas ainda assim um louco.
- Devo me controlar melhor. Sua arrogância é um reflexo da minha própria. E odeio ser arrogante – ele então apontou para a cadeira a sua direita – sente-se, vamos conversar.
- O que você pode querer de uma criação, já que é tão poderoso?
- Sou onipotente e impotente ao mesmo tempo. Eu quero que converse comigo simplesmente porque nunca fiz isso antes.
- Se você sou eu, então isso é meio estúpido, não?
- Talvez – então o estrangeiro mudou imediatamente de assunto – o que você acha de seus heróis?
- Não acho nada, só quero que eles me ouçam e me ajudem.
- Você os toma somente por ferramentas para seu plano maior, mas não sabe o que são. Eles são as únicas criaturas desse mundo que eu não posso controlar totalmente. Posso mata-los, guia-los, puni-los quando erram e recompensa-los quando acertam. Mas nunca posso transformar suas mentes.
- E como seres tão insignificantes poderiam desafiar você, o Criador dos Criadores?
- Seu plano de nada serve sem eles. É apenas uma história inacabada. E eles não são um empecilho para mim. Os trouxe para Faralchar unicamente por seu poder de livre arbítrio. Gosto de ver como eles se comportam, interagir indiretamente com eles. Gosto de assistir a suas reações e decisões. A história que eu conto é a história deles, antes de ser sua ou do resto de seu mundo. Este que não passa de um mundo dentro de outro mundo.
- Então teve o trabalho de me trazer para este lindo recinto para que eu desista de meu plano? Algo que esperei eras e eras para poder realizar? Acho que vai ter que me destruir, enquanto ainda tem a chance.
- Sua insolência é engraçada, mas você está errado, Kerwal. Eu acho que o mundo será muito mais interessante se você for bem sucedido. Mas não cabe somente a eu decidir. Cabe aos seus chamados heróis.
- Me diga algo que eu não sei.
- Claro, quando terminarmos nossa conversa. Eu só quero que você entenda que, mesmo que eles não aceitem a sua proposta, o jogo ainda não acabou e ainda pode ser que você atinja seus objetivos. Só não os deixe de lado. Você tem o poder de ajuda-los mesmo sem eles saberem, como já fez antes. Ainda assim, eu torço para que eles se tornem seus aliados, pelo menos até a guerra acabar. Depois, eles terão outra escolha e não posso adivinhar se ainda continuarão a seu lado.
- Ainda assim, tudo isso – Kerwal disse, gesticulando os braços mostrando as coisas ao seu redor – é uma perda de tempo.
- Perda de tempo? Você sabe que não se passou momento algum desde que saiu de sua tenda.
- Certo, mas pode me mandar de volta agora?
O estrangeiro levantou-se e andou até o lado de Kerwal.
- Claro, mas ainda preciso lhe dizer algo que não sabe.
Com descrença nos olhos, o Mestre Supremo quase chegou a rir, achando graça das palavras.
- No final, você precisará de dragões. Tudo fica melhor no final com dragões.
- E como você acha que eu sequer poderia me colocar a frente de Arkam e Surth sem que eles…
E a ideia lhe veio à mente. Ela não estava lá antes. A única expressão que Kerwal poderia se lembrar do estrangeiro era a que veio a seguir: ele sorria.

5- O Conselho Negro

O conselho dos imortais estava reunido em uma das casas destruídas de Mald. Todos os imortais rodeavam Kerwal esperando que ele desse a ordem para o ataque. Ardol estava a sua esquerda, com seu semblante impaciente que sempre trazia a tona um pouco de ódio de todos os presentes. Ao lado deste estava Áster, com seu costumeiro sorriso afetado. Ao lado direito do Mestre Supremo estava Taiga coberto com seu manto negro, um sujeito soturno, sempre ouvindo mais do que falando. Ao lado dele, estava Loenin, tão impaciente quanto poderia estar, rodava uma adaga negra a sua frente e encarava incrédula o Mestre Elemental. Do lado oposto de Kerwal estava Ikon, antigo aprendiz do Mestre Diabólico, apenas concordava com tudo que Ardol falava, um boneco manipulado e facilmente manipulável.
- O ataque já deveria ter sido feito, Mestre Supremo – Ardol sentenciou.
- Fui agraciado com uma ideia fantástica. Poderemos atacar amanhã, o desvio no plano central seria mínimo.
- Os Intocáveis estão tão impacientes quando o Mestre Ardol, Mestre Supremo – reclamou Ikon, como era comum que fizesse.
- Esperei muitos anos, posso esperar mais – disse Áster – além do que, quem eu queria que estivesse aqui ainda não chegou. Thorian ainda não chegou e estou ansioso para esfregar a posse de seu pai na sua cara.
- Quanto mais esperamos aqui, mais dinheiro perdemos – decretou Loenin.
- O Rei está lá, assim como Dárion e seu sucessor – continuou tagarelando Ikon – quanto mais tempo esperarmos, mais chances eles terão de escapar. Omein e o Cavaleiro Dourado têm que perecer. O Rei não deixa descendentes, com sua morte conseguiremos que os nobres percam tempo decidindo quem ficará com a coroa, talvez até se matem nesse meio tempo.
- Você o toma por tolos, jovem Ikon – Kerwal gostava de ver a face humilhada do jovem imortal quando não o chamava pelo título – A capacidade dessa gente de deixar os problemas internos para depois da guerra os define como reino e os manteve a salvo dos bárbaros há quase dois mil anos atrás. A guerra virá em primeiro lugar, isso se o Rei não tomou medidas para essa possibilidade. Omein pode não ser capaz de liderar seus soldados no front mas é astuto como uma cobra.
- E quanto mais tempo dermos a ele, mais planos eles poderão tramar – disse Ardol, quase triunfante.
- O restante dos intocáveis chegará amanhã – disse Taiga pela primeira vez em meia hora, o rosto de Ardol contorceu-se de desgosto.
- E Mestre Aelon? Continuará em sua caverna? – perguntou Ikon, rapaz tolo, sua ligação com Ardol era tão clara como água.
- Aelon não participará deste combate – comentou pacificadoramente Kerwal – Deve ter seus motivos, mas não precisamos e nem devemos contar com sua ajuda. Eu preciso de um dia para executar minha ideia e os Intocáveis chegarão em massa essa noite ou pela manhã. Portanto está decidido: atacaremos amanhã.
Ardol remexeu-se na cadeira, mas foi Ikon quem pronunciou suas palavras.
- Não podemos fazer isso! Temos a chance de esmaga-los agora e a estamos perdendo por uma causa que o senhor não quer nem sequer dividir conosco, isso é tolice.
Áster levantou-se ruidosamente, deixando a cadeira cair atrás de si. Apontava o indicador na cara do jovem Imortal ameaçadoramente. Kerwal gargalhava por dentro, satisfeito com seu plano correndo.
- Quem é você para não adereçar o Mestre Supremo dessa maneira, criatura estúpida!?
- Mas… – Ikon tentava argumentar, mas apenas murmúrios saiam de sua boca. Ele tremia.
- E a guerra não se faz da imprudência e impaciência, jovem Mestre Ikon – Loenin interveio.
- Peço desculpas, Mestre Supremo, fui insolente e tolo – disse Ikon, como um sussurro e de cabeça baixa.
- Então está decidido – sentenciou Kerwal, levantando-se – Vejo vocês amanhã na matança.
Como uma sombra, Herian acompanhou o Mestre Supremo para fora da casa.
- Precisa de companhia para onde está indo, Mestre?
- Não. E prefiro você vivo.
- Mestre, me dá a permissão para ser insolente?
- E desde quando você não é? Pergunte logo.
- Você os quer todos do lado de lá amanhã, não é? Pretende que eles vençam.
- Eles perderão, mas sim, quero todos eles lá. Mas minha jornada é verdadeira, arranjos futuros, se é que você me entende.
- Sim, Mestre Supremo. Com a sua licença.
Com um pensamento, Kerwal estava em outro lugar. No mesmo deserto que estivera antes, mas a muitas milhas a leste. E a grande sombra pairou sobre sua cabeça. O imenso dragão azul pousou a sua frente. Com sua voz gutural perguntou:
- O que faz aqui, Guardião dos Nomes? Essa terra está além dos limites, até para você.
- Garanto que seus mestres estarão muito dispostos em me receber. Sou portador da notícia que vocês estavam esperando desde a Traição Demoníaca. Avise Mestre Surth e Mestre Arkan que estou aqui para negociar.
Não é algo comum de se ver hoje em dia: o Dragão estava surpreso. Sabia do que Kerwal estava falando. Toda a mágoa e raiva que se acumularam por dezenas de milhares de anos crescia em seu coração e o céu foi tomado pelo som ribombante do Chamado Dracônico.

6 – Tudo fica Melhor com Dragões

A Morada dos Dragões, como Kerwal gostava de chama-la, estendia-se diante dele até onde a vista podia alcançar para o infinito do céu acima. Com um simples pensamento, ele estava lá: apenas uma das inúmeras vantagens que Kerwal tem por ser Kerwal. O túnel que levava ao Salão de Varkast abria-se imenso a sua frente, quase tão profundo na montanha quando o pico desta perfurava o céu. Vários dragões o avistavam de suas cavernas privadas, não com raiva destruidora como se poderia esperar, mas com uma pitada de esperança receosa em suas faces monstruosas. Grandes, pequenos, imensos e maiores ainda eram os dragões que se apresentavam para segui-lo no seu caminho para o encontro que era esperado desde a Traição. Entre eles, um único humano o esperava no final da jornada montanha a dentro. Vestia-se em um manto carmesim com muitos detalhes em platina pura. Era Eralon, o Abençoado, o único mortal que foi agraciado com a imortalidade dracônica, assim como seus outros poderes. Ele possuía muitos mais títulos e também era um Herói da Guerra Sombria que ocorrera a pouco menos de duzentos anos antes. O jovem Abençoado posicionou-se ao lado de Kerwal orgulhosamente e deu os últimos passos junto dele.
- Espero, para o seu bem, que o que tenha a dizer seja útil, Guardião dos Nomes – disse ele, informalmente – Arkan não está de bom-humor ultimamente e lhe destruiria sem pensar se achar seu testemunho perda de tempo.
Kerwal expressou um meio sorriso desafiante.
- Eles não me matarão – disse simplesmente.
Arkan e Surth esperavam por ele no centro do Salão que mais parecia uma cidade inteira. Com certeza poderiam construir Fardon ali e ainda sobrar espaço para mais um milhar de fazendas. Várias concavidades foram escavadas nas rochas de maneira que os dragões, mesmo o maior deles, pudesse acomodar-se para ouvir. Eram milhares de concavidades, a maioria delas vazia: a raça dos dragões já teve épocas em que era muito mais numerosa, mas agora restava apenas poucos exemplares.
- Seja bem vindo, Kerwal, Guardião dos Nomes – disse Surth, gentilmente.
O Primeiro Dragão Dourado era do tamanho de uma montanha. Seu corpanzil parecia tomar conta de metade do Salão e a luz refletida em suas escamas iluminavam como o sol. Arkan, por outro lado, não parecia estar muito receptivo. Era um exemplar magnífico: maior que o irmão e com músculos que poderiam arrastar uma montanha com apenas um estalar da cauda coberta de escamas vermelhas escuras; ao contrário de Surth, o dragão vermelho estava repleto de cicatrizes resultado de combates atrozes.
- Vem a nós com notícias importantes – continuou Surth – reunimos grande parte de nossos irmãos para presenciar esse momento grandioso…
- Ou uma execução que entrará para a história – interrompeu Arkan.
- Estou lisonjeado com uma recepção tão… calorosa – disse Kerwal, sorrindo – Posso lhes assegurar, meus poderosos primos, que o que tenho a oferecer é condizente com suas expectativas.
- Então diga logo o que tem a dizer – rosnou o dragão vermelho.
- Primeiro temos que tratar das condições, nobres senhores – comentou Kerwal como se a afronta não fosse nada e nem direcionada a duas das mais poderosa criaturas em Faralchar.
Arkan aproximou sua imensa cabeça do Mestre Supremo e soltou um entediado suspiro ungido a fogo e fumaça. As roupas de Kerwal estavam chamuscadas, apesar de ele próprio não ter sofrido queimadura alguma. Ele jogou a capa negra ao vento e ela se transformou em um manto dourado fosco. Tomou a nova roupagem e a vestiu rapidamente.
- Preto não combina comigo mesmo – sussurrou o Guardião dos Nomes para si e depois voltou a falar em voz alta – Estou em uma guerra, como os senhores bem sabem, então não me dou o privilégio de presentes.
O Primeiro Dragão Vermelho começava a abrir sua bocarra fumegante, quando seu irmão o tocou levemente com a cauda, pedindo que se acalmasse.
- Diga o que quer, Kerwal – disse Surth, muito menos receptivo que antes.
- Quero seu apoio na guerra que se sucede. Uma vez que ela ter sido ganha, ou melhor, uma vez que eu tenha vencido, posso criar uma passagem para o Inferno.
Os dragões se agitaram e suas vozes tomaram conta do salão. Arkan calou a todas elas:
- Os Dragões não se intrometem nos assuntos que não nos dizem respeito.
- Assim sempre foi – disse um dragão que observava.
- Mas se intrometeram quando Asnüminë se levantou. E acredito que não foi por causa daquele jovem apenas – disse Kerwal, desviando seu olhar para Eralon, que permanecia impassível – Mas entendo sua preocupação. Não preciso de muitos dragões. Uma tropa de uma centena seria mais do que suficiente. Todos experientes, claro. Acho que é um preço muito baixo a se pagar pelo Coração.
- E como pretende criar o portal? Nenhum de nós conseguiu até agora – disse Surth, um tanto incrédulto – e seu poder atualmente não é maior do que o nosso.
- E é exatamente aí que vocês entram – disse Kerwal, tentando conter sua euforia – Se eu vencer, poderei abrir o portal por tempo o suficiente para que o Inferno possa ser mais chacoalhado do que já está. E também tenho outro trunfo na manga.
- E qual seria? – perguntou Arkan, desdenhoso.
- Para isso, tenho outra pequena condição.
—-
O dragão vermelho bufou novamente e rugiu, estremecendo as paredes do Salão de Varkast e os dragões que observavam atentamente.
- Você nos vem cheio de condições, Guardião dos Nomes – disse Arkan, enraivecido.
- E qual seria esta segunda condição, Kerwal – disse Surth, soturno.
- Os dragões que lutarem na Guerra deverão exterminar até o último inimigo, sem piedade ou qualquer coisa do tipo.
- Dragões não conhecem a misericórdia para os inimigos – rosnou Arkan.
- Então é uma condição muito fácil de se cumprir, não?
- E qual seria o seu trunfo adicional? – perguntou Surth, interessado.
- Conheço uma pessoa que poderia desafiar a todos nós juntos, na verdade, cinco pessoas. Pessoas que, por uma favorabilíssima coincidência, estão no Inferno a eras. Um verdadeiro tesouro no confronto de Valmer.
- Você está falando de… – disse o dragão dourado, sua voz esvaindo conforme prosseguia.
- Saren Ilíthiel – decretou Kerwal.
Todos os dragões ficaram alguns segundos sem soltar um suspiro sequer. Tanto Arkan quanto Surth não eram exceção.
- E como pretende convencer os Cinco Grande Imortais a juntar-se a nossa causa? – perguntou ainda abalado o Primeiro Dragão Dourado.
- Por acaso, o portal que os levará ao Inferno também será capaz de trazer esses célebres convidados de volta. E acredito que eles estejam ansiosos para retornar.
- Isso é uma aposta de alto risco – comentou Surth – Segundo você mesmo disse, só terá este poder se ganhar a guerra não? É sabido que você pretende a Ascenção. Mas eu te pergunto: E se você perder? Teremos apenas perdido contingente.
- E ainda teríamos que procura-lo para sua queda – comentou Arkan, ameaçadoramente.
- Não se preocupem, caros senhores – disse Kerwal – Se eu perder, algo que não pretendo que aconteça, eu não existirei mais. Na verdade, nenhum de nós aqui existirá.
Arkan e Surth trocaram olhares, conversando mentalmente.
- Então você jura, Kerwal, Guardião dos Nomes, que temos um acordo e que não fará nada para quebra-lo ou resistir a punição do Esquecimento se o fizer?
- Eu, Kerwal, Guardião dos Nomes, Mestre Supremo do Culto Imortal… – continuou Kerwal com todos os seus títulos, o que demorou alguns minutos para ser feito – Juro pelo que sou e pelos nomes que possuo, que temos um acordo. O qual consta que os Primeiros Dragões me fornecerão uma tropa de cem de sua espécie para me ajudar na Guerra das Filosofias da maneira que me bem vier. Em troca lhes darei uma passagem livre e sem armadilhas para o Lar Infernal e negociarei a ajuda dos Cinco Grandes Imortais. Assim eu digo e que assim seja.
O dragão dourado olhou para seu irmão em concordância e eles recitaram o juramento.
- Eu, Surth… – continuou o Primeiro Dragão com seu nome completo, que é impronunciável por qualquer mortal e todos os seus títulos – Juro pelo que sou e pelos nomes que possuo, que temos um acordo.
- Eu, Arkan… – disse o dragão vermelho o seu nome completo e todos os seus títulos – Juro pelo que sou e pelos nomes que possuo, que temos um acordo.
Depois continuaram em uma só voz.
- O qual consta que receberemos uma livre passagem que nos permitirá adentrar o Lar Infernal sem perigo e receberemos a ajuda dos Cinco Grandes Imortais para enfrentar Valmer, Traidor, Maldito Seja Seu Nome, em busca do Coração de Varkast, Pai dos Dragões, Nosso Pai, Senhor da Montanha Mãe e Rei de todos os que partilham sua descendência. Em troca disto, lhe daremos uma tropa de cem dragões experientes para lhe ajudar na Guerra das Filosofias da maneira que lhe bem vier. Assim dizemos e que assim seja.
Todos na sala, sensíveis a magia pura, sentiram o estreitamento dos Fios sendo tecidos como prova daquele acordo. Tudo parecia estar feito e acabado. Mas Eralon deu alguns passos a frente para ser visto tanto pelos Primeiros Dragões quanto por Kerwal.
- Se me permitem, Senhores, gostaria de oferecer as minhas garras, minhas escamas e o meu fogo – disse ele na forma dos dragões – a liderar o exército dos cem dragões.
Todos os dragões na sala murmuraram algo. Alguns discordavam de ser um dragão não-nascido a liderar seus irmãos. Outros o invejavam por não ter se oferecido primeiro. Outros ainda ficaram aliviados de não ter de carregar tal fardo. Arkan e Surth não mostravam reação sequer, mas calaram a audiência com suas vozes.
- Aceita esse comandante, Guardião dos Nomes?
- Claro. Por que não? – disse Kerwal, já tinha abandonado completamente a formalidade e acrescentou em voz baixa para que apenas Eralon pudesse ouvir - Isso vai ser divertido.

Com a reunião terminada, todos os dragões saíram do Salão de Varkast desordenadamente. Kerwal saiu por onde veio e, pelo grande corredor, conversou um pouco com Eralon Flare.
- Por que decidiu fazer isso, meu jovem? – disse Kerwal curioso – Mesmo você pode ser morto.
- Eu sou um dragão – respondeu Eralon orgulhoso – não sou feito de um material facilmente destruído. Mas ainda restam resquícios humanos em mim. Um deles é o tédio de viver sempre a procura de tesouros. É a oportunidade perfeita para reviver os dias gloriosos… E vê-los queimar.
Kerwal sorriu. Depois de mais algumas nuances envolvendo a guerra, eles finalmente se despediram.
- Esteja preparado para o meu chamado.
- Eu sempre estou preparado.
De volta a sua tenda na cidade de Mald, Kerwal reuniu seus guerreiros. A hora chegara. As cartas foram jogadas.
Que Venha a Guerra.
FIM
Autor: Cássio.

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