A Última Noite Ao Fogo
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1

-Você quer que eu vá pegar mais lenha – perguntou Ayato aos seus companheiros.
-Não – respondeu carinhosamente Tiari, olhando-o nos olhos – Acho que temos o suficiente.
-Vai ser uma bela noite de primavera, não é? – disse Kanae, buscando seu bandolim – vocês se importam se eu tocar um pouco?
-Você não vai começar a arranhar essa madeira aí, né? – grunhiu Ugarak.
-Meu caro amigo de presas grandes, você realmente não sabe apreciar as coisas belas, não é? – retrucou o bardo – Mas você sempre sai por aí à noite. Não vai sair hoje?
-Não vou – disse o meio-orc – o vento está vindo do norte e o norte costuma ser traiçoeiro.
-Você e suas profecias – diz Tiari.
-Elas já nos salvaram outras vezes, moça – disse Ugarak.
-Ponto pra ele – disse Ayato, rindo.
*E todos riram*

2

-E o poderoso Ugarak seu machado usou, a abominação cheia de bocas de se mexer parou – cantava Kanae – Sem muito pensar, o mestre dos punhos de ferro pôs-se a socar…
-“Pôs-se a socar”? – disse Ayato – Não foi bem assim e também não soa bem.
-Hum…tem razão – concordou Kanae – que tal: Depois de muito ver e analisar, o mestre dos punhos de ferro decidiu ao demônio uma punição dar.
-Muito melhor – disse Tiari.
-Vem novamente o refrão – continuou o bardo – e falta só o parágrafo final.
-Assim como nas nossas vidas – disse o meio-orc que ficara quieto durante toda a discussão da canção – Os ventos estão fortes demais para a primavera, não?
-Você tem razão, Ugarak – disse a maga – Acho que vem um temporal por aí. Ainda bem que já terminei meus estudos por hoje, vou guardá-los no espaço extradimensional, me dêem um momento.
*A maga começou a juntar os livros dispostos desordenadamente a sua frente*
-E a maga incauta sem temer a morte, tentou juntar seus livros jogados totalmente sem sorte – cantou Kanae rindo – Ai!
*Tiari acabara de jogar em seu companheiro debochado um crânio de lagarto feito de jade, presente de Ayato. O projétil, por um incrível golpe de sorte, atingiu ruidosamente a têmpora do bardo, sua orelha ficou muito vermelha*
-Você podia ter me matado com esta coisa! – disse indignado, mas sem perder o bom humor, o bardo.
-Em cheio! – exclamou Ayato.
-Nunca insulte uma mulher humana, Kanae – disse Ugarak – elas são piores que qualquer demônio no inferno quando irritadas, mesmo que com a verdade.
-Você quer uma pedrada também? – perguntou Tiari e todos riram.

3

-Vocês se lembram da nossa primeira aventura? – perguntou subitamente Ugarak. Todos olharam para ele surpresos – O que? Não posso fazer uma sessão nostalgia?
-Claro que pode – disse Tieri – Só não é comum você puxar conversa.
-Talvez essa noite me mudou.
-Claro que eu lembro – disse Ayato – eu estava em péssimos lençóis. Um homem estranho em uma terra completamente nova para ele. Aquela naga gigante me perseguia desde Thandorl. Minhas forças estavam se acabando. Foi quando eu vi a fumaça na floresta em que estava andando sem rumo por dias. Para o meu azar, era um acampamento de orcs e eles não gostavam muito de humanos…
-E o Uga era um prisioneiro deles – disse Kanae brincalhão – Eu estava lá simplesmente porque queria roubar o dinheiro que eles tinham roubado de outros. É muito mais fácil roubar de ladrões, menos trabalho.
-Felizmente te concertamos nisso, Kanae – disse distraído o meio-orc – Nada que algumas machadadas não enfiaram na sua cabeça, não é? Tudo bem que eram maioria ameaças. Enfim, você diz a verdade, menestrel. Eu estava preso simplesmente por ser um impuro e eles estarem na falta de um brinquedo para se divertir.
-E a naga chegou junto comigo – continou o monge – Os orcs tiraram os olhos de mim e voltaram-se para a cobra gigante com cabeça de mulher, ela era mais preocupante que eu.
-E o astuto menestrel cortou as cordas, liberando o monstro do machado sem dobras – cantou o bardo – O monstro chamado Ugarak cortou a cabeça da cobra com apenas um Rahk! Ganhei algumas moedas com essa canção… Felizmente progredi nesses anos.
-Exatamente – disse Ayato, animado – Acho que o Uga nunca mais teve tanta sorte com o machado, não é?
-Teve a vez do caçador de recompensas – contrariou o meio-orc – Mas ele nem se comparava ao que a Naga era para mim na época. E por algum motivo Tiari apareceu do nada. Nunca entendi essa parte.
*Todos olharam para a maga, concordando*
-Eu tive uma visão – disse ela – Já contei para vocês isso.
-Visões que nunca mais se repitiram – disse Ugarak.
-A magia não é simples, caro amigo – respondeu ela defensivamente.
-Diga de uma vez, Tiari – reclamou Kanae – Você vai esperar que eu morra para me contar no outro mundo?
*Tiari suspirou, imaginando que o bardo não ia desistir tão facilmente*
-Tudo bem – disse a maga relutantemente – Eu conto.
“Meu mestre tinha uma espelho amaldiçoado. Ele mostrava um possível futuro e tudo que uma pessoa via nele ela seria empurrada inconscientemente para pegar. Eu, tola aprendiz curiosa que era, espiei a bola. Mas o objeto me mostrou mais do que eu queria ver. Ela me mostrou um homem de cor amarela que tinha acesso a um poder que eu tomaria para mim, assassinando-o. Esse homem era Kamina Ayato. Ela me mostrou onde eu o encontraria. Quando eu lá cheguei, encontrei o homem quase morto, muito conveniente, mas ele estava protegido por um orc gigantesco, só depois eu fui descobrir que Ugarak não era completamente um orc. E logo depois um enxerido se aproximou deles e começou a falar sobre a divisão das moedas, praticamente ignorado. Então, eu tinha que me disfarçar. Fui até eles e disse que poderia ajudar o rapaz e o ajudei mesmo. Depois de alguns dias éramos já um grupo e seria fácil matar o thandorin sem problemas. Mas certa vez estávamos na montanha verde, procurando um artefato poderoso do qual Kanae ouvira falar. Lutamos contra alguns lagartos super-desenvolvidos. Em uma das batalhas eu fui derrubada e estava para cair no penhasco. Arriscando sua vida descendo quase dois metros em pedra lisa, Ayato me salvou. O artefato era apenas uma história do bardo para pegar a jóia de jade. O thandorin então pediu a pedra para si já que não servira para nada, ninguém hesitou em frustrar os planos de Kanae. Para a minha maior surpresa ainda, Ayato deu a gema valiosa para mim. Não consegui matá-lo naquela noite, nem nas seguintes. Quando me dei conta, já estava apaixonada por ele. Mas a maldição não me deixou. Quando Ayato quase morreu quando enfrentamos aquele Vorme de Gelo, contei para ele toda a verdade. Então nós sozinhos procuramos o espelho e o quebramos. Mas isso foi pior ainda, pois a criatura que estava lá dentro estava finalmente livre. Aquele Efreeti que enfrentamos um mês atrás foi quem me amaldiçoou e que estava preso no espelho.”
-É isso – completou Tiari – agora vocês sabem. Eu temia o julgamento de vocês e por isso nunca contei. Agora podem me julgar da maneira que quiserem.
-Você ta de brincadeira, não é? – falou rindo Kanae – Essa é a história menos original que eu já ouvi.
*Quando o bardo percebeu que somente ele ria, continuou*
-Não tenho julgamento nenhum, Tiari.Dentro daquela maldita torre do Efreeti encontrei esse anel – mostrou Kanae o anel com espaço para três pequenas pedras, mas apenas uma vermelha restava – Sua história nada original foi muito lucrativa.
-E quanto a você – disse a maga – grande e sábio Ugarak, o mais sábio entre os orcs?
-Sua história é de redenção, mulher humana – disse o brutamonte – Eu mais do que todos aqui entendo isso. E respeito você e seu marido por terem sobrevivido.
*Tiari, como se tivesse se livrado de um fardo imenso, caiu em prantos no colo de Ayato que simplesmente a abraçou em troca*

4

-Tudo bem – disse Kanae para Ayato em particular – Eu posso levar o monte de músculos para longe.
*Tiari estava sentada sozinha olhando para as estrelas que já estavam altas no céu. Ugarak estava no limiar de luminosidade olhando para o horizonte*
-Ei, Uga! – gritou Kanae aproximando-se do meio-orc – Eu preciso ir no banheiro. Vem comigo? Sabe como é, com o vento do norte e tudo…
-Também acho que eles devem ficar sozinhos – disse Ugarak em voz baixa – Vamos.
*Quando ambos já haviam saído da vista, Ayato já estava sentado ao lado de sua amada*
-Eu tenho algo para você – disse ela, remexendo a bolsa – Sabe, eu nunca dei nenhum presente para você então…aqui.
*A maga tirou da bolsa um pequeno graveto com faixas brancas enroladas. Nenhuma mancha tingia o branco do tecido de seda*
-É para proteger seus punhos.
-Obrigado – disse Ayato tomando as faixas em mãos – São bonitas, não quero estragá-las quando eu estiver lutando ou treinando.
-Elas são mágicas, não vão nem se rasgar nem sujar. Afinal, aquele Efreeti tinha razão, você me trouxe um poder inimaginável. Se eu não amasse você, nunca seria capaz de fazer essas faixas.
*Ayato beijou-a profundamente. Antes de continuar as carícias ela disse:*
-Eu já sei o nome do nosso primeiro filho.
-E qual seria?
-Lletor.
-Lletor Ágeven. Ele vai ser inteligente como a mãe.
-Kamina Lletor. Ele vai ser forte e sábio como o pai.
*E pela última vez, o amor de Kamina Ayato e Tiari Ágeven se consumiu. Mas o filho Lletor nunca seria concebido do ventre da maga curandeira, conhecedora dos segredos*

5

-Eu vou pegar um pouco de água – disse Tiari, ainda vestindo apenas sua roupa de baixo – Quer um pouco?
-Claro – respondeu Ayato, sorrindo.
*A maga levantou-se e andou alguns passos. O jovem monge ficou deitado ali, simplesmente de cuecas, olhando a imensidão negra com pontos brilhantes. Tiari estava voltando, quando ela parou repentinamente e caiu sobre seu amado*
-Cuidado – disse Ayato divertidamente, mas sua expressão logo mudou. Nas costas de sua mulher havia uma flecha negra.
*Os gritos de fúria de Ugarak e a canção de batalha de Kanae puderam ser ouvidas ao longe. Ayato ficou parcialmente paralisado. Ele virou Tiari com carinho e lentidão. Ela olhou nos olhos dele*
-Use meu presente, meu amor – disse ela, poupando forças.
*O monge colocou-a ao lado e beijou sua testa. A música de Kanae havia parado repentinamente. Ayato levantou-se e olhou em volta: somente escuridão. Então ele foi até sua bolsa e pegou a seda que ainda não havia sido guardada. Ruídos de movimentação atrás das árvores. Ele os ignorou e cobriu suas mãos com a faixa branca. Algo mudou. O monge sentiu seu sangue correr mais rápido, mas não apenas o sangue. O chi no qual ele era perito também podia ser sentido por todo o seu corpo. E a concentração era incrível, ele entrava em um estado de plenitude espiritual, mental e corporal. Aos poucos, as coisas foram desaparecendo: a raiva, o medo, a preocupação, a excitação, a coragem, a lua, as estrelas, as árvores, a escuridão e, por fim, Tiari. Os inimigos agora estavam visíveis como pontos luminosos. Em Ayato agora só existia Água, Lago, Terra, Montanha, Fogo, Relâmpago, Vento e Céu*
-Vocês escolheram um péssimo dia para assassinatos – disse o monge sem controlar sua própria voz.
*Ele partiu para o primeiro dos cinco assassinos, armados com arcos, todos encapuzados. O Relâmpago agiu. Antes que seu alvo percebesse, seu crânio já estava partido e ele, morto. Uma flecha voou. Sem nem olhar, Ayato pegou-a em mãos e a quebrou. Só restavam quatro. O mais próximo de Ayato jogava o arco no chão e tirava sua adaga negra. Mas antes que ela saísse da bainha, o Fogo agiu. O assassino não percebeu, mas quase dez golpes o incapacitaram de prontidão. Os outros já vinham. Ayato correu para o meio da clareira. Lago e Montanha agiram. Enquanto monge desviava-se de um ataque, ele aceitou o outro sem hesitar. O ataque desviado atingiu seu companheiro que tivera mais sorte. O corpo enrijeceu e o sangue parou de jorrar, o veneno não havia feito estrago algum. Ayato não poderia se desviar do terceiro atacante, mas este simplesmente desintegrou-se no ar. O braço de Tiari caiu voltou a repousar depois disso. Só restava um. E o Céu agiu. Ayato apenas tocou seu inimigo no pescoço e desejou que ele morresse. E foi o suficiente*
-Tiari, você está bem – voltando a ver as coisas da maneira normal, Ayato correu para socorrer sua amada. As veias da face dela estavam negras, culpa do veneno mortal.
-Sim, querido – disse ela com os olhos lacrimejando – Venha até aqui.
*Ele curvou-se até ela, fazendo-os ficar à centímetros um do outro*
-Eu tenho uma coisa para te pedir – ela continuou, quase sussurrando – Eu quero que você viva feliz…
-Só se for ao seu lado.
-Acho que isso não vai ser possível. Essa flecha tinha muito mais do que veneno, temo que não poderemos mais nos encontrar nesse mundo.
-Não pode ser. Eu tenho certeza que os servos de Tullï darão um jeito…
-Não, Ayato. Minha missão aqui acabou, mas a sua ainda não. Tem algo que você tem que fazer.
-O que poderia ser mais importante do que você?
-Só uma coisa… – seus olhos perdiam o brilho – Adeus, meu amor.
*E seus olhos se fecharam. Ayato a abraçou com força, como se aquilo a pudesse trazer de volta. Não trouxe*

6

*Ayato sentava em uma pedra. Lágrimas caiam de seus olhos. O corpo inerte ao seu lado havia sido enrolado em mantos brancos. O buraco já estava pronto. Só faltava a coragem de se despedir, mesmo que a alma dela não estivesse ali*
-Tiari…
*Nesse momento, um barulho de passos pesados e de algo sendo arrastado vinha da floresta. O fogo estava para se extinguir. Ayato não se importou com o barulho, quase desejou que fosse mais um assassino. Não era. Ugarak saiu do meio das árvores arfando e sangrando. Cinco flechas perfuravam seu corpo. O meio-orc puxava o corpo inerte de Kanae*
-Eles vieram de surpresa – disse o brutamonte, escolhendo as palavras. Ele quase soltou o corpo do amigo quando viu que Ayato estava sozinho, chorando – Sinto muito, Ayato.
-Não é culpa sua.
-Kanae pereceu na batalha. Ele me salvou, amigo. Ele, ao invés de salvar a própria pele, usou aquele anel mágico para evitar que as flechas me matassem.
-Ele morreu como um herói.
-Agora eu me arrependo de nunca ter dito que ele era uma boa pessoa, apesar de todos os defeitos.
-Ele sabia, Ugarak.
*Uma hora depois, os dois corpos estavam enterrados em suas respectivas covas. O vento do norte parara de soprar*
-O que você vai fazer agora? – perguntou Ugarak.
-Eu já perdi tudo que tinha para perder. Vou deixar essa vida. Eu tenho um dinheiro guardado e posso vender alguns itens e comprar uma terra em algum canto. Tiari me disse que eu tinha ainda algo para fazer nesse mundo. E é somente por isso que não finquei uma daquelas flechas negras em meu coração.
-Você vai superar. Os mortos nunca nos abandonam totalmente, é nisso que acredito.
-Você é um grande homem, meu amigo. O que você vai fazer?
-Voltar para Trublurk. E tomar para mim o que me é de direito.
-Eu desejo boa sorte a você.
-O mesmo. Mas eu posso te ajudar em algo.
*Ayato olhou para o amigo. As chamas agora mal iluminavam suas faces*
-O vento do sul está bom hoje. Os seus espíritos sussurram aos meus ouvidos. Dizem: “Duth”. Talvez isso seja de alguma ajuda para você.
-Foi um prazer conhecê-lo Ugarak, Machado dos Ventos.
-Igualmente Ayato, Mestre dos Punhos de Ferro.
*E o fogo finalmente se extinguiu*

Autor: Cássio.

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